Em meio a uma crise energética sem precedentes, a vida cotidiana em Cuba se tornou um desafio constante. Gustavo, um jovem de 25 anos que vive em Havana, compartilha sua experiência, marcada por apagões que duram até 16 horas por dia, falta de água e um sistema de transporte público quase paralisado. Sua rotina, que poderia ser a de qualquer jovem profissional, é drasticamente afetada por essas dificuldades, que reconfiguram seus planos e sonhos.
Gustavo trabalha em uma galeria de arte e, nos fins de semana, se dedica a visitar exposições e escrever sobre elas para uma revista. No entanto, a crise energética, considerada a pior das últimas décadas, transformou sua vida em um verdadeiro quebra-cabeça. A escassez de energia não é o único problema; a falta de transporte público obriga Gustavo a planejar meticulosamente suas saídas. Um táxi, que poderia custar um terço do seu salário mensal, é uma opção inviável.
A situação se agrava com a falta de água, que pode durar semanas, e as noites passadas à luz de uma lanterna, na tentativa de escapar do calor. Gustavo descreve a falta de energia como um fator que impacta até mesmo as atividades mais simples do dia a dia. O Sistema Elétrico Nacional de Cuba, operado pela União Elétrica, entrou em colapso diversas vezes desde o início do ano, e a infraestrutura energética do país é antiga e obsoleta, sem investimentos adequados para sua manutenção.
Os problemas são ainda mais complexos devido à dependência de combustíveis fósseis, que Cuba não consegue obter devido a um bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos. A situação se tornou crítica após ameaças do ex-presidente Donald Trump a países que fornecem petróleo à ilha, além da interrupção dos embarques da Venezuela. Enquanto isso, cidadãos como Gustavo enfrentam as consequências na vida diária, em meio a uma crise econômica profunda.
Na busca por soluções, Gustavo relata que, em um dia em que amanheceu com luz em casa, ele se sentiu sortudo. No entanto, sua rotina de deslocamento é marcada por dificuldades. Para ir ao trabalho, ele precisa atravessar um túnel submarino que não permite tráfego a pé ou de bicicleta. O sistema de ônibus de Havana praticamente parou de funcionar, e o ciclobus, que ainda opera, enfrenta falhas frequentes.
Quando o ciclobus não está funcionando, Gustavo não pode ir trabalhar. Ele se recusa a gastar uma parte significativa de seu salário em transporte. Quando consegue atravessar o túnel, precisa caminhar até a piquera, onde carros particulares oferecem transporte, mas a preços exorbitantes, que chegam a 800 pesos cubanos, representando um quarto do salário mínimo.
A falta de transporte também impacta sua vida social. Gustavo admite que não sai para dançar ou beber em um bar há anos, devido aos altos custos e à dificuldade de voltar para casa à noite. Além disso, a escassez de combustível afetou também os caminhões de lixo, que não passam regularmente, resultando em acúmulos de lixo nas ruas. Em algumas áreas, os moradores se veem obrigados a queimar o lixo, o que gera incêndios involuntários e agrava ainda mais a situação.
A vida em Havana, como a de muitos cubanos, é marcada por uma luta constante contra as adversidades. Gustavo, com seu espírito resiliente, continua a enfrentar os desafios diários, mesmo em meio a uma crise que parece não ter fim. A história dele é um reflexo da realidade de milhões de cubanos que, apesar das dificuldades, buscam maneiras de viver e sonhar em um cenário tão adverso.


