Post: Oxfam Brasil revela como a concentração de riqueza intensifica a desigualdade política

Oxfam Brasil revela como a concentração de riqueza intensifica a desigualdade política no país, afetando a democracia e as oportunidades.
Oxfam Brasil revela como a concentração de riqueza intensifica a desigualdade política

A desigualdade de renda no Brasil é exacerbada pela presença desproporcional de ricos na política, conforme aponta o relatório “Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, publicado nesta quarta-feira (19) pela Oxfam Brasil. O estudo destaca que, uma vez no poder, aqueles que acumulam riqueza tendem a criar leis e regulações que não favorecem a distribuição de recursos, sufocando a democracia e conferindo às elites um poder de veto sobre políticas públicas e influenciando as eleições.

O relatório analisa como os que possuem recursos conseguem moldar as agendas públicas e disputar a destinação dos recursos comuns. “Ao examinar a concentração no topo da distribuição, busca-se compreender como determinadas frações sociais monopolizam recursos econômicos, jurídicos e simbólicos que lhes permitem preservar posições de comando”, afirma o documento.

No contexto brasileiro, a situação é agravada por um histórico legado de escravidão e concentração fundiária, que permite às classes dominantes reorganizar seus privilégios em diferentes ciclos de modernização. A análise das dinâmicas de formação de riqueza e sua relação com o poder político revela um impacto significativo no sistema eleitoral, que luta para se manter igualitário, mas falha em sua tentativa. A desigualdade vai além das disparidades monetárias comuns, consolidando-se como um projeto de poder.

O fenômeno da concentração de riqueza não é exclusivo do Brasil. O estudo “Resistindo ao Domínio dos Ricos”, publicado pela Oxfam Internacional, revela que a riqueza dos bilionários cresceu US$ 2,5 trilhões no último ano, alcançando um recorde histórico de US$ 18,3 trilhões. Essa concentração de riqueza ameaça as liberdades civis, já que indivíduos super-ricos têm uma probabilidade 4.000 vezes maior de ocupar cargos políticos do que cidadãos comuns.

Além disso, o “World Inequality Report 2026” destaca que os 10% mais ricos da população mundial ganham mais do que os outros 90%, enquanto a metade mais pobre detém menos de 10% da renda gerada. O “Global Wealth Report 2026”, elaborado pelo banco suíço UBS, posiciona o Brasil na quarta posição mundial em desigualdade patrimonial, com cerca de 386 mil milionários no país. O relatório indica que aproximadamente 69% da população adulta brasileira permanece na base da pirâmide, com patrimônio médio de até R$ 51 mil.

Embora o estudo reconheça avanços recentes, como a saída de quase 9 milhões de pessoas da linha da pobreza, conclui que a dinâmica de desigualdade persiste, principalmente devido à estrutura tributária que penaliza mais a base do que o topo. Essa situação é mantida por uma dupla blindagem, ideológica e jurídica, e é acentuada pelas corporações de alta tecnologia, que ampliam o impacto em campos tradicionais.

A Oxfam critica ainda a limitação das políticas de transferência de renda, que, embora necessárias no curto prazo, não enfrentam as dimensões patrimoniais, tributárias, raciais, territoriais e de gênero da desigualdade. Segundo a organização, a melhora dos indicadores médios tende a permanecer limitada e vulnerável sem uma abordagem abrangente.

O estudo também aponta que a decisão sobre essas políticas é tomada por um grupo restrito, caracterizado como branco, masculino e rico. Essa realidade não se restringe apenas ao espaço eleitoral, mas se estende ao Judiciário e aos postos decisórios do Executivo, que seguem uma lógica similar. A captura institucional da soberania afeta desproporcionalmente as populações historicamente vulnerabilizadas, como mulheres negras, povos indígenas e moradores das periferias urbanas.

Os dados do TSE revelam que, nas eleições de 2024, apenas 13,2% dos municípios brasileiros elegeram prefeitas, e nas capitais, apenas dois dos 26 pleitos foram vencidos por mulheres. Nas últimas eleições nacionais de 2022, 82,3% dos eleitos para a Câmara dos Deputados eram homens, e no Senado, a disparidade é ainda mais acentuada, com apenas 4 mulheres entre os 27 senadores eleitos.

A concentração de patrimônio entre os homens eleitos deputados federais é significativamente superior ao das mulheres, e as eleições de 2022 mostraram que quase 45% dos eleitos possuíam patrimônio superior a R$ 1 milhão. Entre os candidatos ao Senado, apenas 7% declararam patrimônio de até R$ 100 mil, e nenhum deles foi eleito. O relatório conclui que o processo eleitoral atual funciona como uma engrenagem de triagem socioeconômica, onde o patrimônio acumulado na esfera privada se converte em condições muito superiores de acesso aos mandatos públicos.

Além disso, a hierarquização velada da política institucional perpetua as desigualdades de raça e gênero, com as lideranças partidárias mantendo os mesmos grupos que já tinham vantagens de financiamento antes do fundo partidário. O limite participativo não se resume aos cargos eletivos, mas reflete também no acesso a cargos nos outros poderes e em instâncias de colegiados técnicos, perpetuando uma lógica restrita de conhecimento e relações sociais construídas ao longo do tempo.

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