Em 2015, Nayib Bukele foi eleito prefeito da capital de El Salvador, San Salvador, pela Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), um partido que surgiu da antiga guerrilha após a guerra civil. Antes disso, em 2012, Bukele já havia exercido o cargo de prefeito em Nuevo Cuscatlán, também pelo mesmo partido. Jovem empresário, ele captou a insatisfação popular com a política tradicional, especialmente após uma pesquisa de 2018 que indicava que mais de 75% da população não desejava que nem Arena nem FMLN voltassem ao poder. Assim, ele se posicionou como uma alternativa, um rosto novo em um cenário saturado.
Após ser expulso da FMLN em 2017 devido a conflitos internos, Bukele fundou o movimento Novas Ideias, que mais tarde se tornaria um partido. Sua trajetória política foi marcada por tentativas frustradas de se candidatar à presidência em 2019, primeiro pelo partido Mudança Democrática e, em seguida, pela Gana, de orientação mais à direita. Bukele se apresentou como um candidato capaz de romper com o bipartidarismo, fazendo campanha contra a corrupção e utilizando as redes sociais para se conectar com a juventude, que se tornou seu principal suporte eleitoral. Ele venceu as eleições no primeiro turno, obtendo cerca de 53% dos votos.
A construção de sua imagem como um líder carismático e salvador se alicerçou na percepção de que a insegurança era o principal problema do país, um desafio apontado por 58,6% dos entrevistados em uma pesquisa. No entanto, a narrativa oficial que associa o sucesso de Bukele no combate à criminalidade ao encarceramento em massa esconde uma realidade mais complexa. A queda nos índices de homicídio começou antes das medidas drásticas de 2022, que incluíram prisões em massa e um regime de exceção.
Documentos penitenciários analisados pelo jornal El Faro revelam que, desde os primeiros meses de sua administração, houve reuniões entre funcionários do governo e líderes de gangues, como a MS-13. Essas conversas abordavam a redução da violência e ofereciam benefícios penitenciários em troca de apoio político. Em 2021, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções a dois funcionários salvadorenhos, afirmando que representantes do governo haviam oferecido incentivos ao crime organizado em troca de apoio político e redução da violência.
Além disso, é importante destacar que as gangues que Bukele afirma ter derrotado não surgiram em El Salvador, mas foram formadas em contextos distintos. A Barrio 18, por exemplo, nasceu em Los Angeles na década de 1960, enquanto a MS-13 foi criada nos anos 1980 por jovens salvadorenhos que migraram para os EUA durante a guerra civil. As políticas de deportação dos anos 1990 contribuíram para que essas estruturas se estabelecessem em um país que enfrentava desafios sociais e econômicos profundos.
Portanto, ao analisar a figura de Bukele, é fundamental considerar não apenas sua ascensão política, mas também as complexidades e contradições que permeiam sua gestão. A narrativa simplista de um herói que combate a criminalidade deve ser questionada, e as evidências de negociações clandestinas com facções criminosas não podem ser ignoradas. O futuro de El Salvador dependerá de uma compreensão mais profunda dos desafios enfrentados pelo país e das soluções que realmente podem promover a paz e a segurança.




