A recente sanção da nova lei dos data centers pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva é considerada um passo significativo para o fortalecimento da infraestrutura de inteligência artificial no Brasil. No entanto, o setor ainda enfrenta desafios críticos, especialmente no que diz respeito ao acesso à energia, um fator crucial para a expansão desse tipo de empreendimento.
Marcio Aguiar, diretor da Nvidia na América Latina, destacou que o principal obstáculo atualmente não está mais nas aplicações tecnológicas, mas sim na capacidade energética disponível. A demanda por energia tem aumentado rapidamente devido ao crescimento dos projetos de data centers, que exigem um consumo elevado em picos de operação. “Energia, conectividade e refrigeração passaram a determinar a escala dos projetos”, afirmou Aguiar.
O novo Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, sancionado por Lula, isenta de tributos como PIS/Pasep, Cofins e IPI os equipamentos necessários para a instalação e manutenção dessas estruturas no Brasil. Segundo Juliano Dantas, vice-presidente de Tecnologia e Inovação da Axia Energia, essa iniciativa visa fomentar um ecossistema que precisa se expandir no país, embora ainda haja necessidade de avanços em aspectos regulatórios relacionados à energia.
Flávio Loução, sócio da consultoria Deloitte, projetou que os data centers deverão consumir 565 TWh em 2026, representando um aumento de 26% em relação a 2025. Para 2027, a previsão é que esse consumo chegue a 702 TWh, com mais da metade desse volume advindo de servidores dedicados à inteligência artificial. Loução ressalta que, apesar do Brasil ter um grande potencial para gerar energia renovável a baixo custo, a necessidade de investimentos em infraestrutura de transmissão é urgente, dado que a queda de um consumidor desse porte pode causar distúrbios significativos na rede elétrica.
O presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), Thiago Prado, revelou que existem mais de 56 GW em pedidos de acesso de data centers, um volume que equivale a cerca de um quinto da capacidade instalada de geração de energia no Brasil. Contudo, ele acredita que muitos desses pedidos podem não se concretizar. A EPE está em diálogo com investidores para entender o estágio de cada projeto e propor melhorias na rede de transmissão para viabilizar o crescimento do setor.
A dificuldade reside em antecipar investimentos sem criar uma infraestrutura excessivamente grande em relação à demanda real. Linhas de transmissão levam cerca de cinco anos para serem implementadas no Brasil, enquanto um grande data center pode ser construído em aproximadamente três anos, segundo Prado. Além disso, o setor vê a necessidade de descentralizar novos projetos. Atualmente, a maior parte da capacidade de data centers está concentrada na região Sudeste, mas áreas com maior disponibilidade de energia e terrenos adequados estão começando a ser consideradas como alternativas. Rogério Gachet, CEO da Eletronet, destacou que 96% da capacidade de data centers está no Sudeste e que a melhoria da conectividade, especialmente no que diz respeito à fibra óptica, é um desafio que precisa ser enfrentado para garantir a qualidade e a resiliência dos serviços.




