Após 15 anos de espera, a Justiça finalmente se manifestou sobre a trágica colisão que resultou na morte de dois jovens em Primavera do Leste. O empresário Richard Gaertner foi condenado a 19 anos, sete meses e 20 dias de prisão pelo Tribunal do Júri, em um julgamento que ocorreu na última quinta-feira (8). A decisão foi unânime entre os jurados, que acolheram a acusação do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) e reconheceram a prática de dois homicídios qualificados.
O acidente, que chocou a comunidade local, aconteceu na madrugada de 12 de maio de 2011, quando Ayle da Silva Strub Veiga, de 24 anos, e Leandro José Brem, de 28 anos, trafegavam de motocicleta pela BR-070. Eles foram violentamente atingidos na traseira por uma caminhonete conduzida por Gaertner, que, segundo a investigação, havia consumido bebidas alcoólicas antes e durante sua estadia na casa noturna Sexy a Mil, localizada nas proximidades do local do acidente.
Testemunhas relataram que o empresário já estava embriagado quando deixou o estabelecimento. Ao assumir a direção da caminhonete Toyota Hilux, ele colidiu com a motocicleta, resultando na morte instantânea dos dois ocupantes. O impacto foi tão forte que transformou aquela madrugada em uma tragédia que deixou marcas profundas nas famílias e amigos das vítimas.
Após a colisão, Richard Gaertner não prestou socorro às vítimas e deixou o local, o que agravou ainda mais sua situação. A investigação revelou que ele tentou ocultar a caminhonete envolvida no acidente, dificultando a identificação do veículo. Embora a tentativa de ocultação tenha sido reconhecida, a Justiça extinguiu a imputação criminal relacionada a essa conduta devido à prescrição, permitindo que o processo continuasse apenas pelas mortes.
Um dos pontos centrais do julgamento foi a classificação do crime. A defesa de Gaertner argumentou que não havia dolo eventual, ou seja, a intenção de matar não estava presente. No entanto, o Ministério Público sustentou que as circunstâncias do caso, especialmente o consumo de álcool e a maneira como ocorreu a colisão, justificavam a acusação de homicídio doloso. Para os promotores, a conduta do empresário não poderia ser tratada como um mero acidente de trânsito, mas sim como uma ação que assumiu o risco de provocar mortes.
A denúncia foi apresentada em 2015, quatro anos após o acidente, e a tramitação do processo enfrentou diversas dificuldades, incluindo a localização de testemunhas. A primeira audiência de instrução só ocorreu em 2023, doze anos depois das mortes, evidenciando a morosidade do sistema judicial.
O julgamento final ocorreu em 8 de outubro de 2026, onde a promotora Fernanda Luiza Mendonça Siscar apresentou a acusação. Os jurados, ao analisarem as provas, reconheceram a prática de homicídios qualificados, considerando as circunstâncias que tornaram a responsabilidade de Gaertner ainda mais grave.
Com a condenação, a pena de 19 anos, sete meses e 20 dias de reclusão foi estabelecida, e a Justiça determinou o início imediato do cumprimento da pena, seguindo o entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a soberania dos veredictos do Tribunal do Júri. Isso significa que, mesmo que a defesa recorra, a pena deverá ser cumprida imediatamente.
A condenação de Richard Gaertner reabre o debate sobre a responsabilidade de motoristas que dirigem sob efeito de álcool e as consequências de suas ações. Para as famílias de Ayle e Leandro, a decisão judicial representa um alívio após anos de espera e incertezas, mas também traz à tona a dor de uma perda irreparável.



