Post: Israel: Memória coletiva e divisões políticas a caminho das eleições

Israel enfrenta um paradoxo político a três anos da tragédia de 7 de Outubro, com divisões nas urnas e memórias compartilhadas.
Israel: Memória coletiva e divisões políticas a caminho das eleições

Três anos após a tragédia de 7 de Outubro e a menos de três semanas das eleições, Israel enfrenta um profundo paradoxo político. Apesar da maioria da população atribuir à liderança do país a responsabilidade pelo colapso daquela data, essa crítica não se traduz em consenso nas urnas nem em convergência em torno de uma alternativa de poder. A tragédia, ao que parece, transformou-se em uma memória nacional compartilhada, mas a conclusão política extraída dela permanece fraturada e dividida.

Os dados reforçam esse paradoxo. Na mais recente pesquisa do Canal 12 de Israel, 65% do público atribui a Binyamin Netanyahu um alto grau de responsabilidade pelo ocorrido. Entretanto, entre os eleitores dos partidos da coalizão, esse percentual despenca para 27%. Essa diferença indica que a ruptura opera dentro de um sistema de identidades e lealdades políticas que já existiam antes do evento. O 7 de Outubro não apagou os campos políticos, nem criou um novo universo conceitual; em vez disso, conferiu um significado diferente e crítico aos valores e questões que já mobilizavam o eleitor israelense.

Atualmente, a percepção da segurança está vinculada ao grau de confiança, o serviço público é medido pela equidade, a economia é avaliada em relação ao custo da guerra e a democracia é testada pela capacidade de aprender e corrigir. As eleições de 27 de outubro ocorrerão dentro dessa matriz de considerações. Outra evidência é que, na pesquisa de setembro do Instituto Israelense de Democracia, 68% dos entrevistados afirmaram que os acontecimentos do 7 de Outubro são centrais em sua decisão de voto. No entanto, esse número não aponta para uma única direção política.

O mesmo acontecimento pode tanto fortalecer a exigência de mudança de governo quanto consolidar o apoio à continuidade do emprego da força ou reforçar a fidelidade a um líder percebido como alguém que se mantém firme diante da pressão internacional. Portanto, não basta perguntar o que os israelenses lembram; é preciso entender como escolhem interpretar essa memória. Nesse contexto, o Índice de Segurança Nacional do think tank INSS de setembro revela que 61% da população expressa satisfação com a condução da guerra pelas Forças Armadas de Israel, em contraste com apenas 34% que dizem o mesmo em relação ao governo.

É nesse espaço de ruptura que se trava a disputa política. Netanyahu tenta sustentar sua posição com base na experiência e conquistas militares. Seus adversários, por sua vez, levantam uma questão fundamental: quem carrega a responsabilidade pelo fracasso do 7 de Outubro pode ou merece ser também quem conduzirá a reconstrução dos sistemas que colapsaram sob sua liderança?

A partir dessa ruptura, a antiga controvérsia sobre o recrutamento dos ultraortodoxos assume novos contornos, tornando-se uma exigência existencial por uma distribuição justa dos riscos e encargos. Para uma parcela significativa dos eleitores, a questão do recrutamento tornou-se um dos principais fatores na decisão de voto.

Por fim, a economia também não está alheia à guerra. O custo de vida, que aumentou significativamente nos últimos três anos, preocupa os eleitores. Apesar de sinais de recuperação da atividade e desaceleração da inflação apontados pelo Banco de Israel, a estabilidade macroeconômica não garante bem-estar em cada lar, e a experiência de desgaste vivida pelo indivíduo também molda a disputa política.

O verdadeiro teste de 27 de outubro não é apenas quem será eleito. Uma mudança de liderança é condição para abrir a possibilidade de correção, mas não constitui, por si só, a correção. A questão crucial que se coloca diante de Israel é se o país será capaz de transformar essa profunda ruptura em um novo consenso nacional sobre responsabilidade, repartição de encargos e regras do jogo, ou se continuará a compartilhar a dor da tragédia sem construir a confiança necessária para se reerguer dela.

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