A área de infraestrutura no Brasil se prepara para o segundo turno das eleições, que opõe Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com foco nas altas taxas de juros e na necessidade de recursos do Orçamento público para financiar obras essenciais. Especialistas e representantes de empresas do setor, ouvidos pela Folha, afirmam que o programa de concessões deve continuar independentemente de quem vença, mas alertam que a ampliação dos investimentos depende de financiamentos mais acessíveis e de um maior aporte de recursos públicos.
De acordo com Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, grupo que congrega algumas das maiores empresas de infraestrutura do país, os investimentos na área devem atingir cerca de R$ 300 bilhões neste ano, com 84% desse total proveniente do capital privado. Ele destaca que o modelo de concessões se consolidou e transcende as orientações políticas dos governos. “A infraestrutura se tornou uma agenda de Estado, muito mais do que uma agenda de governo”, afirma.
Entretanto, essa continuidade é acompanhada de dificuldades significativas para financiar obras que demandam grandes quantias e que levam anos para gerar retorno. O custo do crédito é uma das principais preocupações do setor, especialmente diante das propostas dos candidatos. Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria e especialista em infraestrutura, enfatiza que a redução da taxa básica de juros está diretamente ligada à situação fiscal do país. “O desafio mais importante para a infraestrutura é a taxa de juros. O próximo governo precisará ter um olhar especial para a situação fiscal do Brasil, a fim de garantir a queda da Selic.”
Além da necessidade de juros mais baixos, Glanzmann ressalta a importância de o próximo governo abrir espaço no orçamento para investimentos efetivos. Ele argumenta que o capital privado, que atualmente representa a maior parte dos investimentos, não será suficiente para atender à nova leva de concessões que se aproxima. “Chegamos a um ponto em que apenas o investimento privado não é suficiente para elevar o nível de investimento necessário, que deve atingir entre 4% e 4,5% do PIB injetado em infraestrutura.”
Atualmente, os investimentos no setor correspondem a cerca de 2% a 2,2% do PIB. Para aumentar esse percentual, será crucial combinar recursos públicos e privados. O equilíbrio das contas do governo também é visto como um fator que pode facilitar a alocação de verbas para obras.
As ferrovias exemplificam essa situação, já que a construção de cada quilômetro pode custar em torno de R$ 30 milhões no Brasil, exigindo uma combinação de fontes de financiamento para viabilizar os projetos. Glanzmann observa um cenário de otimismo relativo para os próximos quatro anos, mas com alguns pontos de atenção, especialmente em relação ao equilíbrio fiscal, que impacta diretamente a taxa de juros e a viabilidade dos projetos.
O consultor Mauricio Portugal, especialista em infraestrutura, acredita que a eleição não deve resultar em uma ruptura significativa no programa de concessões e parcerias público-privadas (PPPs). “Não vejo grandes mudanças, seja na gestão de Lula ou Flávio Bolsonaro. Temos uma certa continuidade na realização de novas concessões, independentemente das mudanças políticas.”
Portugal destaca, no entanto, que as privatizações são mais suscetíveis às diferenças políticas entre os candidatos. “Os únicos projetos que pararam foram aqueles que envolviam privatização, e que já são um número limitado, pois a maioria das empresas aptas a serem privatizadas já foi.”
Isadora Cohen também menciona a necessidade de o próximo governo enfrentar os pedidos de revisão de contratos e reequilíbrio financeiro que se acumulam. “O próximo governo precisará trazer respostas céleres e medidas para fortalecer as agências e estruturas de governança, a fim de manter o apetite e o compromisso dos investidores privados.”
Na esfera ambiental, uma das áreas que mais diferem entre as visões de governo de Lula e Flávio, Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), ressalta a importância da participação social nas decisões. O resultado das eleições pode impactar não apenas as ações contra o desmatamento, mas também o financiamento de medidas voltadas à mitigação das mudanças climáticas.
Nos últimos anos, esse financiamento tem se baseado em instrumentos de dívida e no uso de recursos públicos para tornar os investimentos mais atraentes para as empresas. Cardoso acredita que esse modelo deve se manter em ambos os cenários eleitorais. A continuidade do governo Lula poderia consolidar os instrumentos de financiamento, permitindo maior participação da sociedade civil nas políticas públicas. Por outro lado, uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro poderia resultar na manutenção ou expansão dos mecanismos de mercado, mas com um possível enfraquecimento das estruturas de proteção ambiental.



