A França está se tornando o principal foco das preocupações do mercado em relação à sustentabilidade da dívida europeia, superando a Itália, que historicamente foi vista como a mais arriscada. Essa mudança ocorre em um contexto de dificuldades orçamentárias e um cenário político instável, com eleições presidenciais se aproximando. Durante o inverno, os custos de financiamento de Paris ultrapassaram os de Roma, refletindo a crescente inquietação dos investidores. Os rendimentos dos títulos de dez anos da Itália, que por muito tempo foram mais altos que os da França, agora estão abaixo deles. Essa inversão é interpretada como um sinal de que o mercado está reavaliando os riscos associados a ambos os países. Rohan Khanna, chefe de estratégia de juros do Barclays, observa que a França é vista como o elo mais fraco da Europa, enquanto a Itália se beneficia de uma fase de contenção fiscal e estabilidade política. Historicamente, a Itália, parte do grupo conhecido como “Piigs” — que inclui Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha —, era considerada uma das nações mais endividadas da Europa, mas agora, com uma relação dívida/PIB em queda, ela se destaca como um exemplo positivo. Em contraste, a França enfrenta um aumento em sua relação dívida/PIB, passando de 114% para 117% nos últimos anos. Além disso, a Itália apresenta um superávit fiscal primário, enquanto o déficit da França já ultrapassa 5% do PIB. Adam Posen, do Peterson Institute, destaca que a Itália agora é vista como um modelo entre os mercados de títulos do G7. A pressão sobre os títulos franceses aumentou à medida que o governo francês começou a revelar seus planos orçamentários, com o projeto completo a ser apresentado em breve. O ministro das Finanças, Roland Lescure, indicou que pretende manter o déficit fiscal o mais próximo possível de 5% do PIB, mas enfrenta resistência de partidos que podem se opor a cortes nos gastos sociais. A instabilidade política na França, especialmente em um ano eleitoral, gera incertezas sobre a capacidade do governo de implementar reformas necessárias. Por outro lado, a administração italiana, sob a liderança da primeira-ministra Giorgia Meloni, tem sido elogiada por sua disciplina fiscal, reduzindo o déficit de 8% em 2022 para cerca de 3% no ano passado. Essa diferença tem levado investidores a reconsiderar suas alocações, com muitos reduzindo sua exposição a títulos franceses e aumentando sua participação em títulos italianos. A crescente popularidade de candidatos de extrema esquerda e direita na França também contribui para a incerteza, com pesquisas indicando que Jean-Luc Mélenchon pode enfrentar Marine Le Pen em uma possível segunda volta nas eleições. Essa dinâmica política, somada à deterioração das contas públicas, coloca a França em uma posição vulnerável, enquanto a Itália se beneficia de um ambiente mais estável e favorável aos investidores.


