“Pensei em todo momento em desistir”. A declaração do fotógrafo Marlon Soares, morador do Complexo da Maré, reflete a frustração de muitos eleitores da região, onde cerca de 140 mil pessoas residem. A dificuldade para votar no dia 4 de outubro, durante o primeiro turno das eleições gerais, foi um desafio para muitos, especialmente para os quase 17 mil eleitores que tiveram seus locais de votação alterados em relação à eleição de 2024.
Marlon, que sempre votou no mesmo local, expressou seu descontentamento: “Eu estou muito incomodado com essa decisão de mudança de local de votação”. Ele mencionou que, no novo endereço, as filas eram “gigantescas”, algo que nunca havia enfrentado antes. “Tive que pegar condução para chegar e fiquei mais de duas horas na fila para conseguir votar”, contou.
A mudança dos locais de votação foi uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), que alterou 72 locais em 20 cidades, incluindo a capital. O objetivo era retirar as seções eleitorais de áreas consideradas de alto risco ou dominadas pelo crime organizado, buscando garantir a segurança dos eleitores. No Complexo da Maré, 16.907 eleitores foram afetados, todos pertencentes a 41 seções da 161ª Zona Eleitoral.
As alterações incluem mudanças significativas, como a transferência de eleitores que votavam na Escola Municipal Professor Josué de Castro para o Centro Educacional Gama E Souza, e outros casos semelhantes. Apesar das justificativas de segurança, a mudança gerou preocupações sobre o acesso e a mobilidade dos eleitores, especialmente para aqueles que enfrentam dificuldades de transporte.
Dados do TRE-RJ indicam que a abstenção nas 41 seções eleitorais da Maré que tiveram seus endereços transferidos chegou a 31,07%, superando a média nacional de 21,08%. A ONG Redes da Maré, que analisou a situação, destacou que a mudança de locais pode ter contribuído para essa alta taxa de abstenção, embora não seja possível estabelecer uma relação causal direta.
Para tentar reduzir a abstenção e informar os moradores sobre seus direitos, a Redes da Maré está realizando a mobilização “Esquinas por Direitos”, que vai até o dia 23. A iniciativa busca conversar com os moradores sobre a importância do voto e esclarecer dúvidas sobre os locais de votação. A ONG também utiliza as redes sociais para disseminar informações relevantes, como a possibilidade de quem não votou no primeiro turno participar do segundo.
Além disso, o TRE-RJ ofereceu transporte gratuito no dia da votação, mas a procura foi baixa, especialmente no Complexo da Maré. A analista de Incidência Política da Redes da Maré, Lia Manso, enfatizou a importância da participação democrática, lembrando que o voto é um direito conquistado e que a luta por ele continua. Ela ressaltou que muitos moradores da Maré enfrentam precariedades em diversos aspectos, incluindo segurança pública e acesso à educação.
A ONG também alertou que as mudanças nos locais de votação não são apenas uma questão de segurança, mas afetam diretamente a acessibilidade e a mobilidade urbana, criando barreiras que podem desestimular a participação dos eleitores. “O transporte gratuito não é suficiente quando não chega ao território”, conclui a Redes da Maré.




