Post: A desigualdade na arte e na vida: reflexões sobre a infraestrutura no Brasil

Reflexões sobre a desigualdade no Brasil e a importância da infraestrutura na luta por igualdade.
A desigualdade na arte e na vida: reflexões sobre a infraestrutura no Brasil

As figuras dos “Retirantes”, de Cândido Portinari, caminham sob um céu seco, com corpos ossudos, olhos vazios e crianças inertes nos braços. Não há heroísmo, apenas resistência. Em “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos repetem a mesma marcha: não se deslocam em busca de fortuna, mas para fugir da falta de água, de trabalho, de comida, de Estado. Em ambos, a desigualdade aparece não como abstração estatística, mas como privação material e destino imposto.

Essas obras são manifestos contra a desigualdade em geral e, particularmente, contra a desigualdade brasileira. O país que Portinari pintou era um país em que menos da metade da população sabia ler e escrever, apenas 31,3% viviam em áreas urbanas e a expectativa de vida ao nascer era em torno de 45 anos. Era um Brasil em que a precariedade dos serviços básicos condenava milhões à imobilidade social antes mesmo de qualquer esforço individual.

Naquele Brasil dos anos 1940, a desigualdade tinha endereço físico: o lugar onde não havia trilho, estrada, rede de água, posto de saúde ou escola. A infraestrutura —ou a sua ausência— desenhava o mapa da pobreza com a mesma nitidez com que Portinari desenhava seus retirantes. E é justamente porque essa geografia da privação persiste, ainda que mais discreta, que vale comparar o país de então com o de agora.

O Brasil mudou muito, mas não o suficiente. Hoje, a alfabetização chegou a cerca de 93% e a expectativa de vida a 76,6 anos. Ainda assim, o país segue entre os mais desiguais: o Gini estava em 0,518 na Pnad/IBGE de 2023, e o World Inequality Report 2026 indica que o topo de 10% apropria cerca de 60% da renda nacional. No mundo, a concentração também segue brutal: os 10% mais ricos ficam com 53% da renda global, enquanto a metade mais pobre fica com apenas 8%.

A desigualdade também se mede pela chance de escapar dela. Segundo a OCDE, no Brasil são necessárias nove gerações para que a família de alguém nascido entre os 10% mais pobres alcance a renda média do país —nos países nórdicos, essa travessia leva duas ou três. E a pesquisa recente confirmou o que Portinari intuiu: a oportunidade tem geografia. O economista Raj Chetty, de Harvard, ao mapear a trajetória de 20 milhões de americanos, mostrou que crianças criadas a poucos quilômetros de distância têm destinos radicalmente diferentes —por causa da escola que frequentam, das redes sociais a que têm acesso, do tempo que se gasta até o trabalho. E isso num país onde água, esgoto e energia são universais. No Brasil, à desvantagem da escola e da rede soma-se uma camada anterior de privação: a da infraestrutura básica que ainda não chegou.

Aqui, segundo o Trata Brasil/SNIS (2022), quase 32 milhões de pessoas seguem sem água potável e cerca de 90 milhões sem coleta de esgoto. No mundo, 2,1 bilhões não têm acesso a água potável segura e 3,4 bilhões não dispõem de saneamento seguro. Sem água, esgoto, energia, transporte e conectividade, a desigualdade de renda se transforma em desigualdade de saúde, de acesso à informação e aprendizado, de produtividade e de tempo de vida. Não por acaso, estudos do Banco Mundial cobrindo mais de cem países concluíram que a expansão e a qualidade da infraestrutura estão entre as poucas políticas que, ao mesmo tempo, aceleram o crescimento e reduzem a desigualdade de renda.

É por isso que infraestrutura não é apenas obra: é política de igualdade. Nos contratos de concessão e PPP, isso exige metas de universalização, subsídios tarifários ou aportes públicos focalizados, tarifas sociais, obrigações de expansão para áreas pobres, indicadores de qualidade e mecanismos de reequilíbrio que preservem o investimento sem abandonar o usuário vulnerável. Bem desenhados, esses contratos não apenas mobilizam capital; levam dignidade aonde o mercado, sozinho, não levaria.

Os retirantes de Portinari não caminham apenas pelo sertão; caminham pela história brasileira. Cada rede de água que chega, cada sistema de esgoto implantado, cada linha de transporte expandida, cada conexão digital ampliada é, em alguma medida, uma tentativa de interromper essa marcha. O desafio do nosso tempo é fazer com que, finalmente, eles parem; não por exaustão, mas porque chegaram.

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