Os estados do Pará e do Maranhão se destacam como os maiores beneficiários do Bolsa Família, mas também apresentam os mais baixos índices de qualidade de vida no Brasil. Um levantamento realizado pela Gazeta do Povo, com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e do Índice de Progresso Social (IPS), revela que a dependência de programas sociais está inversamente relacionada à qualidade dos serviços públicos nessas regiões, abrangendo áreas essenciais como saúde, educação, economia e infraestrutura.
De acordo com a Pnad Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 46,1% dos domicílios no Pará recebem benefícios de programas sociais, totalizando mais de 1,2 milhão de famílias, das quais 83% são atendidas pelo Bolsa Família. O Maranhão ocupa a segunda posição nesse ranking, com 45,6% das famílias beneficiadas, sendo que o estado também registra o menor rendimento per capita do país, com uma média de apenas R$ 1.231 por família.
A análise regional mostra que as regiões Nordeste (39,8%) e Norte (38,8%) têm as maiores proporções de domicílios que recebem auxílios, enquanto o Sul do Brasil apresenta a menor dependência, com apenas 10,8%. Santa Catarina, por exemplo, é o estado com o menor percentual de domicílios atendidos pelo Bolsa Família.
O Índice de Progresso Social Brasil indica que os estados com maior dependência de auxílios ocupam as últimas posições no ranking de qualidade de vida. O Pará, por exemplo, é o último colocado, com uma pontuação de 53,71, seguido pelo Maranhão, que obteve 55,96. O IPS é uma medida que avalia a capacidade de uma sociedade em atender às necessidades humanas básicas, garantir qualidade de vida e ampliar oportunidades para a população, utilizando 57 indicadores sociais e ambientais organizados em três dimensões: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades.
Segundo Daniel Duque, pesquisador de Economia Aplicada do FGV/Ibre, regiões com menor qualidade de vida são mais vulneráveis e, consequentemente, mais dependentes de programas sociais. Ele destaca que os indicadores do IPS Brasil mostram que as regiões Norte e Nordeste têm as piores pontuações em áreas como nutrição, cuidados médicos básicos, água e saneamento.
Duque menciona que, de acordo com estudos longitudinais, mais de 60% das crianças que recebiam o Bolsa Família em 2005 não estavam mais no programa após duas décadas. Ele defende, portanto, a implementação de políticas públicas complementares ao assistencialismo. “Regiões mais vulneráveis precisam de políticas compensatórias, mas também é possível melhorar a qualidade de vida com políticas de desenvolvimento que aumentem a renda do país como um todo”, afirma.
Um dos pilares avaliados pelo IPS é a oportunidade para o desenvolvimento pessoal, que inclui acesso à educação e emprego. Esse aspecto é considerado o mais frágil do Brasil, com uma média de 46,82, sendo ainda mais crítico nos estados do Norte e Nordeste, onde os municípios apresentam os piores desempenhos em acesso à educação superior. O Maranhão e o Pará têm os piores indicadores de acesso ao ensino superior, com notas de 34,49 e 34,60, respectivamente. Duque explica que é esperado que regiões empobrecidas tenham pouco acesso à universidade, uma vez que os estudantes precisam ter tempo disponível para estudar, em vez de trabalhar, o que é difícil em contextos de pressão econômica.
A falta de desenvolvimento econômico nessas regiões, caracterizada pela escassez de setores produtivos dinâmicos, resulta em poucos empregos e, consequentemente, em uma renda abaixo da média. Isso leva à migração de jovens para centros urbanos em busca de melhores oportunidades. “No caso das universidades privadas, o estudante precisa ter recursos para pagar a mensalidade e, muitas vezes, isso requer mudança de cidade para conseguir um emprego que justifique o diploma”, comenta.
O governo do Maranhão, em resposta à reportagem, afirmou que tem trabalhado para atender a população com assistência financeira e inclusão no mercado de trabalho por meio de programas sociais. O estado destaca que a renda domiciliar per capita aumentou em 50%, passando de aproximadamente R$ 840 para R$ 1.240. O programa “Maranhão Livre da Fome” complementa o Bolsa Família, atendendo cerca de 74 mil famílias em situação de extrema pobreza e insegurança alimentar.
Além do auxílio financeiro, o governo maranhense oferece programas de qualificação e capacitação profissional, com parcerias com instituições como Senai e Senac. Nos últimos três anos, mais de 566 mil maranhenses saíram da pobreza, e o número de pessoas ocupadas aumentou de 2,1 milhões para 2,7 milhões.
Por outro lado, o governo do Pará não respondeu ao contato da reportagem. A capital do Pará, Belém, recebeu mais de R$ 1 bilhão em investimentos para sediar a COP 30, mas o legado do evento é questionado devido à baixa qualidade de serviços básicos como saúde e educação. Duque lembra que eventos anteriores, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio de Janeiro, não resultaram em melhorias significativas para a população local. “Belém carece de infraestrutura em áreas como saneamento e pavimentação, que não são visíveis durante a COP 30”, conclui.
A situação dos estados mais dependentes do Bolsa Família revela um ciclo de vulnerabilidade e a necessidade urgente de políticas públicas que não apenas ofereçam assistência, mas que também promovam o desenvolvimento e a inclusão social, garantindo um futuro melhor para suas populações.




