O consumo das famílias, que foi considerado o motor da economia brasileira nos últimos anos, está perdendo tração e deve apresentar o menor crescimento desde a pandemia, conforme apontam economistas. Com a principal fonte de demanda enfraquecida, a expectativa é que o investimento e as exportações assumam um papel mais relevante na atividade econômica nos próximos anos.
Após um período em que o consumo avançou em média 3,3% entre 2021 e 2025, a previsão para este ano é de um crescimento em torno de 1%, com os economistas mais pessimistas alertando até para a possibilidade de estagnação. O gasto total dos brasileiros com bens e serviços, que representa 63% do PIB (Produto Interno Bruto), está sendo contido por um alto nível de endividamento e pela redução do ímpeto no mercado de trabalho e no crédito em comparação com anos anteriores.
Além disso, a expectativa é de que o impulso fiscal diminua no próximo ano, em um esforço para controlar a crescente relação entre dívida e PIB, que atingiu 82,9% em agosto, o maior nível em cinco anos, segundo dados do Banco Central. Essa situação contrasta com os últimos anos, quando a taxa de desemprego caiu para níveis historicamente baixos, os benefícios sociais aumentaram significativamente e os empréstimos a consumidores cresceram mais de 60%.
Os dados indicam que o consumo avançou 3% em 2021, 4,1% em 2022, 3,2% em 2023 e 5,1% em 2024. Contudo, em 2025, devido a uma base de comparação forte, o crescimento foi mais modesto, de 1,3%. Este modelo de crescimento parece estar se esgotando. No segundo trimestre deste ano, o consumo das famílias, conforme medido pelo IBGE, caiu 0,4% em relação aos primeiros três meses do ano, e há um risco considerável de nova queda no terceiro trimestre, segundo os economistas.
A desaceleração das compras de bens e serviços pelas famílias levou os economistas que acompanham semanalmente o Boletim Focus, do Banco Central, a revisarem suas previsões para a atividade econômica, agora projetando um crescimento de apenas 1,41% para o ano que vem, em comparação com 1,80% estimado no início do ano. Felipe Camargo, economista da Oxford Economics, destaca que as expectativas para o PIB estão diminuindo, sendo o consumo das famílias o principal fator por trás dessa tendência. Ele observa que os dados de vendas no varejo, especialmente aqueles que incluem veículos e materiais de construção, têm surpreendido negativamente.
Após anos de queda acentuada na taxa de desemprego, o mercado de trabalho não deve conseguir manter o mesmo ritmo de geração de vagas. Camargo enfatiza que a redução de 10 pontos percentuais na taxa de desemprego nos últimos anos não é algo que pode ser repetido. “Não dá para continuar gerando emprego formal na velocidade que geramos no passado”, afirma.
Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público do FGV Ibre, aponta que o enfraquecimento do consumo é ainda mais acentuado quando analisado por meio do consumo per capita, que cresceu apenas 0,67% entre o quarto trimestre de 2025 e o mesmo período de 2024. Ele calcula que a alta do consumo nessa métrica entre o segundo trimestre deste ano e o mesmo período de 2025 foi de apenas 0,07%, indicando uma estagnação.
“É um dado muito forte para ser ignorado”, afirma Pires. “Houve uma ruptura do comportamento histórico e se chega a uma estagnação, o que ajuda a explicar por que o governo tem bons resultados para entregar, como o desemprego baixo, mas isso não se traduz em boa popularidade.”
Outro fator crucial para a desaceleração do consumo é o elevado nível de endividamento e comprometimento de renda, que atingiram recordes de 49,9% e 28,7%, respectivamente, em julho, conforme dados do Banco Central. Natália Cotarelli, economista do Itaú Unibanco, observa que o consumo está abaixo do que poderia ser devido ao alto nível de endividamento das famílias e à renda reduzida pelos pagamentos de principal e juros. Ela projeta um crescimento de 1,1% no consumo tanto neste ano quanto no próximo, mas acredita que o mercado de trabalho ainda proporcionará uma sustentação mínima ao consumo no ano que vem, com a taxa de desemprego aumentando, mas ainda permanecendo em 6,2%, um patamar considerado baixo.
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre, ressalta que o endividamento acumulado representa o fim de uma ilusão sustentada por estímulos governamentais que sobrecarregaram tanto o orçamento público quanto o privado. “O consumo é essencial para o crescimento, mas se cresce anabolizado pelo governo, sabemos que isso não acaba bem”, afirma. “Essa fantasia que vivemos é uma ilusão: a conta chegou. Não temos superávit, o governo está endividado e as famílias também.”
Matos argumenta que tentar reanimar a demanda por meio de gastos públicos em um cenário fiscal vulnerável gera um curto-circuito, obrigando o Banco Central a manter a taxa básica em patamares elevados por mais tempo. “O Brasil vive um cabo de guerra entre política fiscal e monetária. O juro real muito alto é como tomar antibiótico por muito tempo: o Banco Central atua como bombeiro e você precisa estender o remédio, gerando efeitos colaterais severos”, compara a pesquisadora.
Ela projeta que o consumo deve desacelerar para uma alta de 0,9% em 2027, mas há cenários ainda mais pessimistas. Luís Fernando Cezario, economista-chefe da Asset 1, prevê que o PIB pode oscilar entre um recuo de 0,1% e uma alta tímida de 0,3% em 2027, com o consumo variando entre estagnação e um crescimento de 0,5%, dependendo do esforço fiscal do próximo presidente da República.



