Em 2025, a invasão da Rússia à Ucrânia e a ofensiva de Israel contra Gaza figuraram entre os conflitos mais letais do mundo, ao lado da guerra civil no Sudão. Um levantamento do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (Prio) revela que esses três conflitos foram responsáveis por cerca de 245 mil mortes diretas, sem contar as vidas perdidas devido à falta de acesso a cuidados médicos e medicamentos, como ocorreu com a ativista sudanesa Roya Hassan. Essa realidade traz à tona uma questão crítica: por que certos conflitos recebem mais atenção da comunidade internacional e da imprensa do que outros?
Embora não se pretenda hierarquizar as guerras, é inegável que a cobertura midiática e a mobilização diplomática variam significativamente. O estudo do Prio indica que a África concentra 29 dos 65 conflitos armados envolvendo Estados, mais do que qualquer outra região do mundo. O Oriente Médio atingiu seu maior número de conflitos desde 1946, enquanto a Ásia também apresentou um aumento significativo. Em contraste, o Haiti, que praticamente não aparece no debate internacional, viu suas mortes em conflitos saltarem de cerca de 200 para mais de 1.200 em apenas um ano.
Frantz Fanon, em “Os Condenados da Terra”, discute como o racismo desumaniza certos grupos, reduzindo ou eliminando sua humanidade como justificativa para a violência e exploração. A guerra na Ucrânia, por exemplo, gerou uma mobilização diplomática imediata e cobertura detalhada da imprensa internacional. Em contrapartida, o massacre em El Fasher, no Sudão, que pode ter causado quase 60 mil mortes em uma única semana, permaneceu praticamente invisível no debate global.
Essa discrepância na atenção midiática não se trata de uma competição entre tragédias, mas sim de um reflexo da hierarquia racial que permeia a percepção global. O estudo também aponta para uma transformação geopolítica importante: na década de 1990, acreditava-se que a expansão do comércio internacional e a interdependência econômica poderiam reduzir os conflitos. No entanto, em 2025, o mundo registrou oito conflitos entre Estados, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial, muitos deles envolvendo países com intensas relações comerciais.
A coexistência do comércio global com nacionalismos exacerbados e a competição por recursos, somada à ampliação da indústria armamentista, desafia a ideia de que a globalização do mercado eliminaria hierarquias e desigualdades. Além disso, a mistura de guerras civis e conflitos internacionais com milícias e crime organizado representa uma ameaça crescente à soberania de países, especialmente na América Latina, onde essa situação é frequentemente justificada como uma resposta ao crime organizado. A análise desses conflitos revela não apenas suas consequências diretas, mas também a necessidade de uma reflexão crítica sobre a atenção que recebem, que muitas vezes está atrelada a questões de raça e geopolítica.



