O Circuito das Águas Paulista é um dos mais renomados do Brasil quando se trata de cachaça artesanal, reunindo cerca de 350 produtores. No entanto, apenas 15 deles estão legalizados, conforme dados da Associação de Produtores de Cachaça de Alambique do Circuito das Águas Paulista (APCCAP). Essa realidade destaca a importância do recente selo de Indicação de Procedência (IP), que visa aumentar a credibilidade e o valor agregado do produto, além de impulsionar o turismo rural na região.
A cachaça artesanal não é apenas uma bebida, mas um motor econômico que movimenta o turismo gastronômico, com guias e degustações que atraem visitantes. A história de Jorge Luís Benedetti, presidente da APCCAP e sócio da Fazenda Benedetti, ilustra bem essa tradição. A família Benedetti, que imigrou da Província de Trento, na Itália, para o Brasil em 1880, começou a produzir cachaça após receber um engenho e um alambique como parte de um pagamento de dívida na década de 1920. Desde então, a produção cresceu e se diversificou, com a Fazenda Benedetti hoje oferecendo cachaças brancas e envelhecidas em barris de diferentes madeiras, cada uma conferindo características únicas ao destilado.
A Indicação de Procedência trouxe uma nova perspectiva para os produtores locais. Benedetti ressalta que o selo elevou a credibilidade da cachaça e estimulou o turismo rural, atraindo visitantes aos alambiques. Isso, por sua vez, beneficia a economia local, movimentando hotéis, restaurantes e lojas, além de gerar empregos diretos e indiretos. O apoio do Ministério da Agricultura e Pecuária foi crucial nesse processo, proporcionando visibilidade à região.
Para promover a cachaça e atrair turistas, foram criadas as Rotas da Cachaça de São Paulo, que incluem 11 estabelecimentos em cidades como Amparo, Monte Alegre do Sul, Piracaia, Serra Negra e Socorro. Esses pequenos produtores não apenas preservam a tradição, mas também valorizam o território, respeitando o clima e a qualidade da cana. A integração dos alambiques a roteiros turísticos não só estimula a circulação entre os municípios, mas também favorece a compra direta e a distribuição dos benefícios econômicos.
Ana Biselli, secretária de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, destaca que a rota amplia as experiências dos visitantes e fortalece os pequenos negócios, abrangendo desde a hospedagem até a gastronomia. Entre os participantes da rota está a Cachaças da Torre, liderada por Viviane Baldin, vice-presidente da APCCAP. Com 28 anos de experiência, Viviane planta sua própria cana e produz uma variedade de cachaças e licores, utilizando leveduras selecionadas para garantir a qualidade e o sabor dos produtos. Apesar do reconhecimento e da valorização do mercado, ela e outros produtores enfrentam desafios como a alta carga tributária, a concorrência com a indústria em larga escala e a dificuldade de acesso a mercados mais amplos.
A legalização é um ponto crucial para a segurança do consumidor e para a valorização do produto. Viviane enfatiza que a certificação pela IP não apenas reconhece a tradição, mas também abre portas para que pequenos produtores acessem mercados exclusivos. Benedetti complementa que a autenticidade da cachaça é fundamental, pois ela representa não apenas uma bebida, mas um legado cultural que sustenta famílias e preserva tradições, colocando a região no mapa do turismo e da gastronomia.



