Especialistas em relações internacionais, geopolítica e tecnologia de informação estão emitindo alertas sobre o potencial de ações cibernéticas por parte dos Estados Unidos e de manipulação através das bigtechs, visando influenciar as eleições gerais de outubro no Brasil.
A escalada de medidas adotadas pelo governo de Donald Trump contra o Brasil, que inclui tarifas de 25% e o cancelamento de vistos de autoridades brasileiras, sugere que novas ações, especialmente no campo cibernético, podem estar a caminho.
Essa avaliação foi compartilhada por analistas consultados pela Agência Brasil, incluindo o pesquisador Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação. Ele destacou que um memorando assinado por Trump, que autoriza o uso de bigtechs em operações de “vigilância cibernética” e “efeitos cibernéticos”, possui implicações alarmantes.
“Os efeitos desse memorando são assustadores. Estamos falando de espionagem e hackeamento em altíssimo nível. Eles podem acessar perfis de qualquer pessoa para criar relatórios que favoreçam ou prejudiquem candidatos”, afirmou Aragon.
O memorando, que busca combater o crime transnacional cibernético, prevê parcerias entre a Casa Branca e empresas privadas para ações que envolvem acesso não autorizado a sistemas de informação. Além disso, a Operação de Efeitos Cibernéticos, prevista no documento, autoriza atividades em redes de telecomunicações e sistemas de controle industrial, podendo resultar na manipulação ou destruição de sistemas de informação.
Aragon defendeu que o Brasil deve desenvolver sua própria infraestrutura digital, uma vez que “todos os sistemas sensíveis do Estado brasileiro estão sob controle de empresas dos EUA”.
Diferentemente de interferências públicas, as ações cibernéticas podem ser realizadas de forma oculta, o que pode dificultar a identificação de sua autoria. Aragon alertou que o impulsionamento de perfis nas redes sociais é apenas uma das táticas já em uso, mas o risco é muito maior.
“O risco é sistêmico e estrutural”, acrescentou.
Em julho, o governo brasileiro já havia negado visto a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA, suspeitando que eles pretendiam questionar o sistema eleitoral brasileiro.
O professor de história e especialista em geopolítica, Euclides Vasconcelos, também acredita que novas ações dos EUA para interferir nas eleições brasileiras são iminentes, especialmente no sentido de descredibilizar o sistema eleitoral.
“As bigtechs são muito mais do que plataformas. Elas estão ligadas a Estados e governos, e têm a capacidade de mobilizar e influenciar diretamente certos segmentos da população”, afirmou.
Vasconcelos citou o exemplo da imigração em massa para Ceuta, onde fake news disseminadas nas redes sociais influenciaram mais de 60 mil pessoas a cruzar a fronteira, mostrando como a manipulação digital pode ser eficaz.
Ele também lembrou da participação de líderes das principais bigtechs na posse de Donald Trump, o que indica um alinhamento dessas empresas aos interesses do governo dos EUA.
Recentemente, o Exército dos EUA revelou que executivos de gigantes da tecnologia foram nomeados tenentes-coronéis de um novo destacamento, evidenciando a relação estreita entre tecnologia e segurança nacional.
Por trás dessas ações, a nova doutrina de segurança dos EUA, divulgada no final de 2025, visa consolidar a influência americana sobre a América Latina. Vasconcelos destacou que o Brasil é visto como uma peça-chave nesse cenário, capaz de desafiar a dominação estadunidense.
“Os EUA tentam moldar o continente americano à sua imagem. O Brasil é fundamental nesse processo”, concluiu.



