A China, que tem se destacado na corrida pela inteligência artificial (IA), observa um cenário atípico em seu mercado de ações. Apesar do aumento significativo na adoção e desenvolvimento de tecnologias de IA, os índices acionários do país têm enfrentado uma queda acentuada. O ChiNext, voltado para empresas de tecnologia, viu suas ações desvalorizarem em cerca de 40% nos últimos quatro meses, enquanto o CSI 300, que acompanha grandes empresas listadas em Xangai e Shenzhen, entrou em um mercado em baixa ao recuar 20% desde seu pico em junho.
Esse pessimismo no mercado chinês contrasta com a animação observada em outras regiões, como Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul, onde o otimismo em relação à IA tem impulsionado as bolsas de valores. A situação na China é complexa, com investidores demonstrando ceticismo em relação aos retornos que a IA pode proporcionar, além de uma cautela fiscal que tem impactado a confiança no mercado.
Nos últimos anos, as autoridades chinesas tentaram criar um ambiente de mercado mais estável, promovendo um “mercado de alta gradual”. No primeiro semestre de 2026, parecia que estavam conseguindo, com o CSI 300 apresentando uma leve alta. A fabricante de chips CXMT, por exemplo, conseguiu captar quase US$ 10 bilhões em sua oferta pública inicial em julho, o que trouxe um sopro de otimismo. No entanto, essa tendência positiva não se sustentou por muito tempo.
O ceticismo em relação à IA é um dos principais fatores que têm contribuído para a queda das ações. Muitas empresas na China hesitam em investir em software de IA, o que gera uma competição acirrada entre as startups do setor. A startup Moonshot AI, que planeja abrir capital em Hong Kong, exemplifica o potencial da tecnologia, mas também a pressão que enfrenta de concorrentes estabelecidos.
Além disso, a contenção orçamentária do governo chinês tem gerado expectativas frustradas entre os investidores. Muitos esperavam que o governo implementasse um pacote de estímulos para impulsionar a economia, mas as autoridades têm se concentrado mais na demanda externa. Embora as exportações de semicondutores tenham dobrado nos primeiros nove meses do ano, a falta de estímulos fiscais tem afetado a demanda interna e, consequentemente, o mercado de ações.
Recentemente, o governo começou a mobilizar investimentos em setores essenciais, como energia e comunicação, para apoiar uma economia cada vez mais dependente da IA. Essa movimentação já trouxe alguma recuperação ao CSI 300, que voltou a superar a marca de 4.000 pontos. Contudo, o futuro do mercado de ações chinês ainda é incerto, e muitos investidores aguardam ansiosamente por sinais de recuperação.
A ironia do momento é que, enquanto a IA promete um futuro brilhante, os desafios econômicos atuais têm gerado um ambiente de incerteza. Os mercados chineses, assim como o lado escuro da Lua, podem estar à espera de sua vez de brilhar, mas a jornada até lá ainda parece longa e repleta de obstáculos.




