A morte de Mao Tsé-tung, ocorrida em 9 de setembro de 1976, completa 50 anos e, curiosamente, sua figura ressurge com força entre os jovens chineses. Na plataforma de vídeos Bilibili, por exemplo, compilações de suas aparições em filmes e séries acumulam milhões de visualizações, com muitos usuários referindo-se a ele como “Mestre” ou “Professor”. Essa nova onda de interesse não é apenas uma questão de nostalgia, mas reflete um contexto social e econômico complexo que os jovens enfrentam atualmente na China.
Mao, que liderou o Partido Comunista e a China desde a fundação da República Popular em 1949 até sua morte, é uma figura que moldou o século 20 do país. Ele implementou políticas como o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, que, apesar de suas consequências devastadoras, são agora revisitadas por uma nova geração em busca de respostas para os desafios contemporâneos. O estudante Dong, por exemplo, expressa sua emoção ao ver jovens cantando em frente a uma estátua de Mao, refletindo um sentimento de patriotismo que ressoa entre seus colegas.
O interesse por Mao entre os jovens se destaca em contrastes com a narrativa predominante na época de seus pais. Após a morte de Mao, o Partido Comunista Chinês, sob a liderança de Deng Xiaoping, adotou uma visão mais crítica de seu legado, reconhecendo tanto suas conquistas quanto seus erros. Essa avaliação, que se resume em “70% conquistas, 30% erros”, fez com que muitos vissem Mao como uma figura histórica, e não como uma divindade.
No entanto, atualmente, a figura de Mao está sendo resgatada, especialmente entre a juventude que se sente desiludida com as promessas de crescimento econômico e mobilidade social. Dados recentes indicam que a taxa de desemprego urbano entre jovens de 16 a 24 anos alcançou 17,9%, o nível mais alto desde a revisão da metodologia estatística. Este cenário gerou um novo vocabulário entre os jovens, incluindo termos como “996”, que se refere a uma jornada de trabalho exaustiva.
A busca por um sentido de identidade e pertencimento leva muitos a revisitar as obras de Mao, como demonstrado pelo fato de que o livro “Obras Selecionadas de Mao Tsé-tung” se tornou o mais emprestado na Biblioteca da Universidade de Tsinghua. A figura de Mao é discutida abertamente entre os jovens, ao passo que o atual líder, Xi Jinping, é um tema mais delicado, frequentemente evitado em conversas.
Especialistas apontam que essa renovada atenção a Mao está interligada a uma percepção de desigualdade e falta de oportunidades. Florian Schneider, professor da Universidade de Leiden, destaca que a realidade dos jovens de hoje é muito diferente da de seus pais, que vivenciaram um período de crescimento econômico. A frustração com a atual situação social e econômica faz com que muitos busquem referências no passado, e Mao, com seu simbolismo forte, se torna um ícone que representa tanto a luta quanto a esperança.
Assim, a figura de Mao Tsé-tung, que por muito tempo foi vista sob uma luz crítica, agora ressurge como um ponto de referência para uma geração que busca respostas em um mundo em transformação. O interesse crescente por sua obra e legado é um reflexo das ansiedades contemporâneas e da busca por uma identidade em meio a um futuro incerto.


