O Brasil apresenta um subaproveitamento alarmante de suas hidrovias, utilizando apenas 20,4 mil quilômetros de rios para o transporte de cargas e passageiros, o que representa menos da metade dos 41,7 mil quilômetros previstos no Plano Nacional de Viação (PNV). Essa informação foi revelada no “Estudo sobre regulação e governança da navegação interior brasileira”, elaborado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT). O documento enfatiza que o país não possui hidrovias adequadas, mas sim rios navegáveis, o que resulta em um desperdício significativo do potencial econômico que poderia ser explorado, em contraste com as práticas adotadas por países como Estados Unidos, Europa e China.
Vander Costa, presidente do Sistema Transporte, destacou que, apesar do Brasil ter um potencial hidroviário expressivo, a exploração dessa capacidade requer planejamento, infraestrutura adequada e segurança regulatória. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a navegação em rios movimentou 91,3 milhões de toneladas de cargas em 2025, marcando um crescimento de 19,7% em relação ao ano anterior. No entanto, o estudo da CNT ressalta que a participação do transporte hidroviário na matriz nacional ainda é modesta, considerando o potencial existente.
A maioria da carga transportada por rios concentra-se nas bacias Amazônica, Tocantins-Araguaia e Paraguai, com destaque para produtos como soja, milho, minério de ferro, petróleo e derivados, celulose e veículos automotores. Diante desse cenário, a CNT sugere uma coordenação nacional para alavancar o uso das hidrovias, propondo uma agenda de iniciativas que abranjam curto, médio e longo prazos, com um horizonte até 2046. Entre as medidas sugeridas, está a criação de uma instância nacional para coordenar a política hidroviária, envolvendo a população, governos locais, governo federal, setor produtivo e academia.
Além disso, o relatório defende a continuidade do Programa de Operação e Manutenção de Eclusas (Proeclusas) e a adoção de concessões à iniciativa privada para modernizar a infraestrutura existente. Vander Costa enfatizou que avançar nesses pontos é crucial para integrar melhor o sistema de transporte, aumentar a eficiência logística e contribuir para a competitividade da economia brasileira.
Em 2025, o governo federal investiu R$ 529 milhões em hidrovias, um aumento de 36% em comparação com 2024. Apesar desse avanço, o governo reconhece que o orçamento destinado às hidrovias ainda é muito baixo, especialmente quando comparado aos recursos alocados para outros modais. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) destinou R$ 8,6 bilhões para rodovias no mesmo ano, evidenciando a discrepância. Eliezé Bulhões, diretor de Gestão Hidroviária do Ministério de Portos e Aeroportos, ressaltou que as hidrovias devem ser vistas como parte de um corredor logístico intermodal, necessitando de integração com rodovias e ferrovias. Ele também mencionou que essa discussão será uma prioridade para os próximos anos.
A situação das hidrovias brasileiras revela um grande potencial inexplorado que, se devidamente aproveitado, pode transformar a logística do país e impulsionar a economia. A implementação das propostas apresentadas pela CNT será fundamental para que o Brasil possa utilizar plenamente suas vias navegáveis e se alinhar às melhores práticas internacionais.




