O Brasil encerrou o primeiro dia de sua participação na cúpula do G7 em Évian com uma postura que evidencia a divergência entre Brasília e as principais economias do mundo. Dos oito documentos negociados sob a presidência da França, o governo brasileiro decidiu aderir a apenas três, rejeitando dois dos três já divulgados na terça-feira (16).
Na análise do governo Lula, muitos dos textos foram deliberadamente moldados para garantir a presença dos Estados Unidos na cúpula, evitando assim um possível veto do presidente Donald Trump. Essa estratégia resultou em documentos que, segundo Brasília, omitem temas centrais, como mudança climática, reforma das instituições multilaterais e o papel da Organização Mundial da Saúde (OMS), para não contrariar os interesses norte-americanos.
Entre os três textos que o Brasil decidiu apoiar, destaca-se a declaração sobre o combate ao câncer, um tema que o governo considera prioritário na agenda de saúde pública, especialmente em relação à ampliação do atendimento oncológico na rede pública. Por outro lado, a declaração sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento foi rejeitada. O governo brasileiro a considera insuficiente, já que propõe a mobilização de capital privado sem abordar questões como dívida externa e combate à fome.
Outro documento que não recebeu apoio do Brasil foi a declaração sobre o surto de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, que não menciona a OMS. Essa omissão é vista como uma tentativa de não contrariar Washington, que reduziu significativamente seu financiamento à agência. Em resposta, o Brasil optou por formalizar sua posição sobre saúde global através de uma carta do presidente Lula ao secretário-geral da OMS, Tedros Adhanom, solicitando apoio dos países do G20 e do G7.
Dos cinco textos restantes que serão discutidos na quarta-feira (17), o Brasil deve aderir a mais dois: a declaração sobre proteção de crianças nas redes sociais, na qual o país possui legislação própria e experiência a compartilhar, e a declaração sobre combate ao narcotráfico, desde que o texto final mantenha a abordagem atual, que inclui também a lavagem de dinheiro, sem classificar organizações criminosas como grupos terroristas.
Por outro lado, a declaração sobre desequilíbrios macroeconômicos deve ser rejeitada, uma vez que o governo brasileiro a considera inadequada e desconectada das realidades enfrentadas pelo país. Essa postura reflete uma estratégia mais ampla de Brasília em se distanciar de documentos que não atendem às suas prioridades e que, em sua visão, foram elaborados para agradar a um único ator no cenário internacional: os Estados Unidos. Assim, o Brasil reafirma sua posição de autonomia nas discussões globais, buscando um alinhamento que respeite suas necessidades e prioridades, mesmo em um ambiente diplomático complexo como o do G7.




