Post: A escolha entre poderes médios e homens fortes

Rui Tavares discute a escolha do Brasil entre poderes médios e homens fortes nas eleições.
A escolha entre poderes médios e homens fortes

Se eu fosse brasileiro, minha atenção estaria voltada exclusivamente para as eleições no Brasil. Embora não seja, compartilho a mesma obsessão pelo tema. Contudo, a Folha já conta com excelentes colunistas para abordar essa questão. Portanto, decidi focar em desenvolvimentos recentes que, independentemente do resultado das eleições, exigirão uma resposta do Brasil.

Hoje, em Estrasburgo, ocorre o discurso do Estado da União Europeia, proferido por Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Pela primeira vez, um chefe de governo de um país não europeu, o premiê canadense Mark Carney, assistirá ao discurso. Carney anunciou que o Canadá busca um tipo de integração associativa com a União Europeia, um movimento que também tem sido cogitado por países como a Austrália.

À primeira vista, essa iniciativa pode parecer surpreendente, mas não é tão estranha. O Canadá já possui um modelo de estado social, uma democracia liberal e uma afinidade cultural com a Europa que facilitam essa aproximação. A ideia de unir a União Europeia e o Canadá deve ser entendida à luz da “estratégia dos poderes médios” defendida por Carney em seu discurso em Davos.

Embora escreva antes de conhecer o conteúdo do discurso, espero que ele traga novidades sobre a proposta de criar um Conselho de Segurança Europeu, que incluiria chefes de Estado e governo, ministros da Defesa e Estados-Maiores de todos os países da União Europeia, com a possibilidade de extensão ao Reino Unido, Noruega, Islândia e Canadá. Em essência, seria uma espécie de Otan sem Trump, preparada para enfrentar futuras eventualidades.

Donald Trump também possui uma estratégia global: promover a eleição de “homens fortes” alinhados ideologicamente com ele, facilitando a expansão de uma esfera de corrupção em escala global, beneficiando a si mesmo e sua família. Para Trump, não há distinção entre democracias e ditaduras, desde que o dinheiro flua para seus bolsos, seja do Qatar, da Rússia ou do petróleo venezuelano.

O Brasil, neste contexto, enfrenta uma escolha crucial entre duas estratégias. A primeira é seguir a tendência de outros países da América Latina, como Argentina, El Salvador e Colômbia, tornando-se um mero estado-cliente dos EUA trumpistas. A segunda opção é preservar sua autonomia, buscando alianças no Sul Global, nos Brics ou na estratégia de “poderes médios” proposta pelo líder canadense, que agrada aos europeus.

Se optar pela primeira alternativa, o Brasil se verá preso em um caminho sem saída. Na segunda, o país poderá manter sua tradição de ser uma potência com uma política externa própria, uma diplomacia respeitada e uma voz autônoma no cenário global.

Embora poucos brasileiros decidam com base nessas considerações, a escolha que fizerem terá importância para o mundo.

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