Post: A batalha do neomercantilismo: quem sairá vencedor?

Análise sobre a era do neomercantilismo e o papel da China e EUA na economia global.
A batalha do neomercantilismo: quem sairá vencedor?

A era atual é marcada por um mercantilismo renovado, onde as preocupações dos formuladores de políticas se concentram tanto na segurança quanto na prosperidade. Essa dinâmica, como argumenta Martin Wolf, colunista do Financial Times, representa uma ameaça à estabilidade econômica global e às relações entre potências. A China, com sua abordagem mercantilista, parece estar em uma posição mais vantajosa em comparação com os Estados Unidos e a União Europeia.

Os mercantilistas buscam poder e segurança, o que implica a capacidade de intimidar e resistir à intimidação. Essa capacidade pode ser medida por fatores como tamanho econômico, autossuficiência e monopólios. Contudo, como destacou Henry Kissinger, a busca por segurança absoluta pode resultar em insegurança para todos os países envolvidos. Quanto mais uma nação se torna ameaçadora, mais os outros se unem contra ela.

A China, atualmente, possui uma economia comparável à dos EUA e está se aproximando em termos de tecnologia, especialmente em áreas como inteligência artificial. Embora os Estados Unidos sejam autossuficientes em energia, a China se destaca por sua força de trabalho e capacidade de investimento. Em 2025, a poupança nacional bruta da China era de 43% do PIB, em contraste com apenas 17% nos EUA. Além disso, o setor manufatureiro chinês é significativamente maior, com um valor agregado quase igual ao dos EUA e da Zona do Euro juntos em 2024.

As vulnerabilidades da China, no entanto, são evidentes, especialmente em relação ao fornecimento de petróleo e gás, como demonstrado pela guerra com o Irã. Apesar disso, a China mantém monopólios em cadeias globais de suprimentos, como energia solar fotovoltaica e baterias de íon-lítio. Essa capacidade de fornecer itens que outros não conseguem se traduz em poder coercitivo e reduz sua vulnerabilidade à pressão externa.

Wolf menciona que a macroeconomia da China mudou drasticamente desde a crise financeira global. As exportações estão em alta, mas a demanda interna estagnou, resultando em um superávit de exportação em manufatura que representa cerca de 2% do PIB mundial, o dobro do que o Japão já teve. Além disso, a China apresenta uma renda líquida negativa inexplicável de cerca de US$ 125 bilhões em seus investimentos estrangeiros, o que sugere uma subvalorização do renminbi em 30%.

Esses superávits comerciais e de conta corrente persistentes geram pressões protecionistas, não apenas nos países de alta renda, mas também em nações em desenvolvimento que enfrentam barreiras ao seu crescimento. A taxa de crescimento econômico da China caiu de mais de 10% há duas décadas para 4,3% no segundo trimestre de 2026, refletindo uma economia que não está gerando oportunidades de investimento suficientes para absorver suas grandes poupanças.

Embora a China se mostre uma potência mercantilista eficaz, essa abordagem não está isenta de falhas. Os EUA também estão adotando práticas mercantilistas, embora de forma menos coesa, enquanto a União Europeia se vê forçada a seguir um caminho semelhante. Neste novo cenário, a ideia de calcular uma “conta de resiliência” em relação à dependência geopolítica surge como uma estratégia inteligente. Mas a pergunta que permanece é: quem realmente sairá vitorioso nesse jogo de poder?

Últimas Notícias