Post: A urgência do ajuste fiscal no Brasil segundo Roberto Campos Neto

Roberto Campos Neto analisa a urgência do ajuste fiscal no Brasil, destacando a pressão sobre as finanças públicas e os riscos associados à dívida.
A urgência do ajuste fiscal no Brasil segundo Roberto Campos Neto

O Brasil enfrenta um cenário fiscal preocupante, com a dívida bruta do governo geral atingindo 82,5% do PIB em julho de 2026, totalizando R$ 10,9 trilhões. O custo com juros consome cerca de 8,7% do PIB anualmente, representando mais de R$ 1,15 trilhão nos últimos doze meses. Com um déficit nominal próximo de 10% do PIB e juros em torno de 14% ao ano, a situação se torna insustentável, pois o governo se financia a um custo muito superior ao crescimento da economia.

A trajetória que levou a esse estado não é um mistério e não se deve a um único governo. Ao longo de duas décadas, diferentes administrações adotaram uma política fiscal que se baseou na prática de prometer agora e pagar depois. Medidas como pisos constitucionais para saúde e educação, pensões indexadas ao salário mínimo real e desonerações tributárias foram acumulando despesas obrigatórias, limitando o espaço para ajustes necessários. Embora tenha havido avanços entre 2017 e 2020 e a pandemia tenha trazido custos extraordinários, o resultado é um déficit estrutural que nenhum ciclo de crescimento conseguiu absorver.

Para ilustrar a gravidade do problema, um exercício simples pode ser realizado. Considerando os rendimentos de mercado de agosto de 2026 e a composição do Plano Anual de Financiamento (PAF) do Tesouro Nacional, que inclui cerca de metade em LFTs indexadas à Selic, um quarto em NTN-Bs atreladas à inflação e um quarto em prefixados, observa-se que o custo médio de rolagem da dívida é superior a 13% ao ano. Enquanto isso, a economia cresce nominalmente cerca de 6% ao ano, resultando em um diferencial entre o custo da dívida e o crescimento do PIB de 7 a 8 pontos percentuais. Sem um superávit primário para compensar essa diferença, a dívida deve crescer a cerca de 7% ao ano, podendo alcançar 150% do PIB até 2035.

Comparando a situação do Brasil com outros países emergentes, a disparidade é evidente. Na Turquia, Rússia e Indonésia, as dívidas estão abaixo de 45% do PIB, enquanto México, Chile, Colômbia e Malásia variam entre 45% e 70%, com trajetórias mais estáveis. Por outro lado, Argentina e Egito estão em processo de redução de suas dívidas, e a África do Sul apresenta uma tendência ascendente, mas ainda assim se mantém abaixo de 80%.

Para economias avançadas, um nível de dívida acima de 130% do PIB é um sinal de crise, como demonstrado pelos exemplos da Grécia e Itália. Para o Brasil, o que se destaca não é apenas o ponto de partida, mas o custo de carregar essa dívida, que é refletido em uma taxa real próxima de dois dígitos, resultado do risco fiscal que o mercado precifica.

Esse diagnóstico já se reflete nos mercados. O Tesouro Nacional enfrenta dificuldades para emitir NTN-Bs, títulos indexados à inflação, com taxas reais abaixo de 8% ao ano. Esse cenário, alarmante em termos históricos e internacionais, indica que o mercado está sinalizando uma crescente preocupação com a sustentabilidade fiscal do país. A necessidade de um ajuste fiscal se torna, portanto, não apenas uma opção, mas uma urgência inadiável para garantir a estabilidade econômica e a confiança dos investidores no Brasil.

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