Uma pesquisa realizada pela Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV RI) revelou que uma expressiva maioria dos produtores rurais no Centro-Oeste e Norte do Brasil se identifica com ideais de direita ou centro. De acordo com o estudo, 83,5% dos entrevistados se posicionam como de direita (44,1%) ou centro (39,4%), enquanto apenas 16,5% se identificam como de esquerda. Essa pesquisa, divulgada em junho, foi realizada entre 25 de outubro e 18 de novembro de 2025, e ouviu mil produtores em 70 municípios dessas regiões.
Os resultados indicam que a maioria dos participantes acredita que o governo exerce uma interferência excessiva na vida das pessoas, com 55,9% concordando com essa afirmação. Além disso, 64,3% dos entrevistados consideram que a regulação governamental dos negócios traz mais malefícios do que benefícios. Essa percepção reflete uma cultura política antiestatista predominante entre os produtores, que, segundo os autores do estudo, é crucial para entender como as pressões externas são filtradas na região.
O estudo intitulado “Como a fronteira agrícola vê as relações internacionais” também destacou que, apesar da China ser o principal destino das exportações de soja e carne bovina da região, os entrevistados demonstram uma maior confiança nos Estados Unidos. Enquanto 21,8% consideram os EUA “muito confiáveis”, apenas 12,6% têm a mesma opinião sobre a China. Essa queda de confiança em relação ao país asiático é significativa, tendo recuado quase 20 pontos percentuais desde 2017, mesmo com o fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e China.
Os autores do estudo ressaltam que a fronteira agrícola é uma área de grande importância para a balança comercial do Brasil, e suas preferências políticas e econômicas têm um impacto direto nas relações internacionais do país. A pesquisa sugere que, à medida que o peso eleitoral da fronteira cresce — representando cerca de 15% do eleitorado nacional —, as preferências da região impõem restrições às posições que Brasília pode adotar na política externa.
Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos autores do estudo, afirma que uma política externa que assume que a fronteira agrícola seguirá seus interesses comerciais em direção ao alinhamento político com qualquer parceiro está equivocada. Ele destaca que as análises sobre as relações internacionais do Brasil frequentemente ignoram as vozes dos milhões de cidadãos que dependem diretamente dos mercados globais.
Com esses dados, a pesquisa revela um panorama claro das preferências políticas e econômicas dos produtores rurais, mostrando que a maioria deles rejeita políticas de esquerda e busca uma relação mais alinhada com os Estados Unidos, refletindo uma visão crítica em relação ao papel do governo em suas atividades diárias.




