A cada troca de presidente no Peru, a história se repete: figuras desconhecidas ou autoritárias assumem o poder, enquanto analistas e veículos de comunicação falam sobre uma crise política sem fim. Essa instabilidade, no entanto, é fruto de processos históricos complexos, que incluem desigualdade, perda de poder econômico e a dificuldade em construir instituições sólidas e duradouras. Os sinais da crise são evidentes: fragmentação institucional, corrupção, presidentes que rapidamente perdem apoio e um Congresso formado por partidos frágeis ou efêmeros.
O que mais intriga, no entanto, não é a efemeridade dos governantes, mas a resiliência do país. Ao longo das últimas décadas, o Peru já derrubou presidentes, dissolveu consensos políticos e viu partidos históricos desaparecerem. Mesmo assim, continua a exportar, crescer, atrair investimentos e gerar riqueza.
Talvez a pergunta correta não seja por que o Peru vive em crise, mas como aprendeu a viver sem acreditar na política. Para entender essa excepcionalidade, é preciso voltar muito antes de figuras como Dina Boluarte ou Alberto Fujimori, até mesmo antes da República.
Historicamente, o que conhecemos como Peru foi o centro do Império Inca, um dos maiores sistemas políticos da América do Sul pré-colombiana. Posteriormente, se tornou o coração do Vice-Reino do Peru, o domínio espanhol mais rico e poderoso no continente. Lima, a capital, era o centro político e econômico da América espanhola ao sul do Caribe, influenciando decisões em regiões que hoje correspondem a países como Equador, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Entretanto, poucos países latino-americanos sofreram uma perda tão profunda de centralidade histórica. A conquista destruiu um império, e a independência desmontou outro. Para a maioria dos países da região, a independência representa um mito fundador; para o Peru, significou a perda de uma posição privilegiada que durou quase três séculos.
Mais recentemente, o Peru enfrentou uma terceira ruptura. Sobreviveu à ditadura de Alberto Fujimori, mas talvez ainda não tenha se recuperado politicamente dela. Ao fechar o Congresso em 1992 e reorganizar o sistema político em torno de sua figura, Fujimori não apenas eliminou adversários, mas também enfraqueceu os partidos que estruturavam a vida pública peruana.
Partidos como o APRA, fundado por Víctor Raúl Haya de la Torre, e o Ação Popular, de Fernando Belaúnde Terry, eram organizações com militância, identidade ideológica e vínculos duradouros com a sociedade. O que surgiu em seu lugar foram siglas sem raízes profundas, frequentemente construídas em torno de lideranças regionais ou interesses locais. O resultado é um sistema em que quase ninguém consegue reivindicar legitimidade duradoura.
Em outras partes da América Latina, a política ainda mantém um certo grau de relevância, mas no Peru, a desconfiança em relação às instituições é palpável. A sociedade aprendeu a se adaptar, desenvolvendo mecanismos próprios de sobrevivência que vão além da política tradicional. Essa resiliência é um testemunho da capacidade do povo peruano de prosperar em meio à incerteza, encontrando formas de avançar mesmo quando a política falha em oferecer soluções efetivas. O futuro do Peru ainda é incerto, mas a história do país é um exemplo de como a sociedade pode se reinventar, mesmo em tempos de crise.



