A literatura de qualidade vai além de palavras complexas e floreios. Para o escritor chinês Mo Yan, laureado com o Nobel de Literatura em 2012, um bom livro é permeado por aromas e, muitas vezes, por rios que dividem o protagonismo com as personagens. Essas reflexões foram apresentadas durante a abertura do Fórum Unesp 50 anos, realizado pela Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) nesta terça-feira (13).
As considerações de Mo Yan, que adotou esse nome artístico que significa “não falar”, revelam muito sobre sua trajetória e visão literária. Nascido em 1955 na aldeia de Ping’an, na província de Shandong, ele cresceu em uma família de agricultores. Desde cedo, Mo Yan enfrentou preconceitos e a incompreensão de seus conterrâneos, que o viam como alguém com problemas mentais por sua tendência a falar sozinho. Para preservar sua individualidade e riqueza criativa, decidiu abandonar seu nome de batismo, abraçando a identidade de Mo Yan.
A relação com a natureza e o simbolismo dos rios
A origem rural de Mo Yan explica sua profunda conexão com a natureza, que permeia suas obras. Ele descreve os rios como um símbolo do tempo e dos sentimentos dos personagens. “Os rios são como relógios que marcam a passagem do tempo”, afirmou durante sua palestra. Essa visão é compartilhada por muitos escritores, e ele menciona a influência de autores como William Faulkner e Gabriel Garcia Márquez, que também exploraram a relação entre a natureza e a narrativa.
A oralidade na literatura
Mo Yan destacou a importância da oralidade em sua formação literária. Em sua região natal, a literatura era frequentemente transmitida de forma oral, com pessoas letradas criando narrativas que refletiam a cultura local. Ele observou que os agricultores, em épocas de desemprego, se tornavam contadores de histórias, encarnando personagens que representavam figuras de autoridade, como generais. “Acho que toda tradição folclórica tem a ver com a nossa vida”, afirmou, ressaltando a conexão entre a literatura e a realidade social.
Realismo fantástico e a crítica social
Mo Yan defende que o realismo fantástico, com suas alegorias e metáforas, é mais poderoso do que o realismo estrito. “Esse tipo de obra consegue refletir conflitos da vida real e transmitir um sentido mais amplo”, explicou. Em suas narrativas, ele aborda temas delicados, como a política do filho único na China, sempre buscando uma identificação com os leitores.
A recepção da literatura chinesa no Brasil
Apesar de sua relevância, a literatura chinesa ainda enfrenta desafios para ser amplamente traduzida e divulgada no Brasil. Atualmente, algumas obras de Mo Yan, como As rãs e Mudança, estão disponíveis em livrarias. Além disso, ele é um dos autores destacados em uma coletânea publicada pela Fundação Editora Unesp, que inclui outros escritores contemporâneos chineses.
Impacto da tecnologia na literatura
Sobre a influência da tecnologia, Mo Yan adota uma postura positiva. Para ele, a tecnologia traz novas formas de representação artística e possibilita que mais pessoas compartilhem suas histórias. “Estamos falando de uma nova literatura popular, que antes era restrita a um pequeno nicho e agora é acessível a todos”, afirmou, destacando a democratização da narrativa.
O Fórum Unesp 50 anos, que se encerra na próxima sexta-feira (15), conta com a participação de renomados especialistas, incluindo brasileiros como Milton Hatoum, Ailton Krenak e Ana Maria Machado, que discutem a literatura e suas múltiplas facetas.
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