A decisão do Ministério da Saúde de não incluir a vacina contra a meningite do tipo B no Sistema Único de Saúde (SUS) foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 17 de abril. Essa medida limita a proteção contra o sorogrupo mais comum da doença ao mercado privado, gerando preocupações em relação à saúde pública.
O parecer da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) justificou essa decisão com base no alto impacto financeiro, estimado em R$ 5,5 bilhões ao longo de cinco anos. Esse valor comprometeria quase 70% do orçamento anual do Programa Nacional de Imunizações (PNI), que atualmente é de R$ 8 bilhões e atende a mais de 30 vacinas.
Além das questões financeiras, o governo federal apontou incertezas técnicas sobre a duração da imunidade e o impacto na circulação da bactéria. Com essa negativa, os pais que desejam proteger seus filhos precisam pagar entre R$ 600 e R$ 750 por dose, totalizando mais de R$ 2 mil para o esquema vacinal completo.
O sorogrupo B é o principal responsável pela meningite bacteriana em crianças de 0 a 4 anos, a faixa etária mais vulnerável. Em 2025, o Brasil registrou 2.357 casos de meningite bacteriana, resultando em 454 mortes. Desses, 138 casos e 21 óbitos foram atribuídos ao tipo B. Especialistas alertam que a letalidade da doença no Brasil é de 24%, mais do que o dobro da média mundial, e que até 20% dos sobreviventes podem apresentar sequelas permanentes, como danos neurológicos e surdez.
Apesar da publicação de abril, o Ministério da Saúde destacou que a decisão não é definitiva. A incorporação da vacina pode ser reavaliada no futuro, caso haja uma redução significativa no preço do imunizante ou novos dados científicos que demonstrem uma relação custo-efetividade mais favorável.
Casos em Mato Grosso: um cenário alarmante
Até o dia 4 de 2026, Mato Grosso registrou oito mortes por complicações relacionadas à meningite, conforme informações da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT). O estado contabiliza 29 casos da doença, evidenciando uma lacuna no SUS, já que a imunização contra as principais variantes requer um investimento de até R$ 750 por dose na rede privada, onde o estoque da vacina tipo B começa a escassear.
Em Cuiabá, a prefeitura informou que as vacinas contra outras variantes estão disponíveis em 72 Unidades de Saúde da Família (USFs), mas a cobertura vacinal ainda é motivo de preocupação. Enquanto a vacina meningocócica C atinge 85,24% de cobertura, a ACWY, voltada para adolescentes de 11 a 14 anos, tem adesão de apenas 50,72%.
A SES-MT também revelou que a cobertura vacinal contra meningococo C em menores de 1 ano é de 98,72%. No entanto, o painel do Ministério da Saúde não disponibiliza dados sobre a cobertura da vacina meningocócica ACWY. Atualmente, o SUS não oferece a vacina contra meningite do tipo B.
Ao contrário das variantes C e ACWY, a imunização contra o sorogrupo B, que é uma das formas mais graves da bactéria, está disponível apenas em clínicas particulares.
Dados alarmantes em 2026
No estado, em 2026, foram registrados:
- 2 óbitos de meningite meningocócica;
- 3 óbitos de meningite bacteriana;
- 2 óbitos de meningite não especificada;
- 1 óbito de meningite por outras etiologias.
Uma pesquisa realizada pelo Repórter MT em farmácias e laboratórios da região metropolitana indicou que o custo da vacina varia entre R$ 610 e R$ 750 por dose. A alta demanda resultou em falta de estoque e congestionamento nos atendimentos.
Uma clínica particular relatou a pressão da procura, afirmando: “No momento, estamos com um alto volume de atendimento em nosso WhatsApp, devido à grande procura pelas vacinas contra meningite bacteriana. Estamos trabalhando para responder a todos o mais breve possível.”
A corrida pelo imunizante privado foi impulsionada por casos fatais recentes, como o de uma menina de 5 anos em Sinop e de uma mulher de 40 anos em Sorriso, embora a saúde de Sorriso tenha negado relação direta com surtos regionais.
Entenda a meningite e suas formas
A meningite é uma infecção das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, apresentando formas bacteriana (mais grave e contagiosa), viral e fúngica. Para as formas virais, vacinas como a tríplice viral, contra varicela, poliomielite (VIP) e a BCG (que previne a forma tuberculosa) ajudam na prevenção indireta e estão disponíveis na rede pública.
A transmissão da meningite bacteriana ocorre por gotículas respiratórias (tosse, espirro e fala) e é considerada uma emergência médica. Os principais sinais de alerta incluem febre alta súbita, dor de cabeça intensa, vômitos, rigidez no pescoço, sonolência e confusão mental. Já a forma viral tende a ser menos grave, com transmissão via fecal-oral ou respiratória, exigindo cuidados básicos de higiene e isolamento.
Vacinas disponíveis no SUS
Confira as vacinas disponíveis no SUS e as doenças que elas combatem:
- BCG: Protege contra as formas graves da tuberculose (incluindo a meningite tuberculosa). Idade: Dose única ao nascer.
- Meningocócica C: Prevê a meningite e a meningococcemia causadas pela bactéria do sorogrupo C. Idade: 3 e 5 meses (com reforço aos 12 meses).
- Meningocócica ACWY: Protege contra meningites e infecções generalizadas causadas por quatro tipos de bactérias (A, C, W e Y). Idade: Dose de reforço aos 12 meses e disponível para adolescentes de 11 a 14 anos.
- Pentavalente: Prevê difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e a meningite causada pela bactéria Haemophilus influenzae tipo b (Hib). Idade: 2, 4 e 6 meses.
- Pneumocócica 10-valente: Protege contra pneumonia, otite e meningite causadas por dez sorotipos da bactéria pneumococo. Idade: 2 e 4 meses (com reforço aos 12 meses).
- Tríplice Viral (SCR): Protege contra sarampo, caxumba e rubéola (ajuda a evitar a meningite viral, que pode ser uma complicação da caxumba). Idade: 12 e 15 meses.
- VIP/VOP: Protege contra poliomielite (doença que também pode causar inflamação das meninges por via viral). Idade: 2, 4, 6 e 15 meses, com reforço aos 4 anos.
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