O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia seu quarto mandato enfrentando um desafio significativo: destravar projetos de infraestrutura que acumulam atrasos e que são emblemáticos para o desenvolvimento do país. Entre essas obras, destacam-se a ferrovia Transnordestina e a transposição do rio São Francisco, que, apesar de terem sido iniciadas há mais de uma década, ainda não foram concluídas. Com um cenário de escassez de recursos para investimentos, especialmente no setor de transportes, Lula terá que lidar com a pressão sobre o caixa da União e as exigências de licenciamento ambiental. A Transnordestina, um projeto que começou em 2006, ainda aguarda a finalização do trecho entre Salgueiro, em Pernambuco, e o porto de Suape. A obra, que deveria ter sido concluída em 2010, não apresenta previsão de entrega. No setor elétrico, a usina nuclear de Angra 3 também permanece indefinida, com decisões pendentes sobre sua conclusão após décadas de interrupções. Além disso, a ampliação da transposição do rio São Francisco é uma promessa que Lula se comprometeu a cumprir, visando a conclusão até o Rio Grande do Norte. Esses projetos, que dependem de investimentos federais bilionários, ocorrem em um momento em que o país enfrenta um rigoroso escrutínio das contas públicas, exacerbado pela alta da dívida nacional. A proposta de Orçamento para 2027 destina R$ 16,07 bilhões para investimentos em infraestrutura de transporte, o que representa uma redução de R$ 661,28 milhões em relação à proposta do ano anterior. Essa diminuição, de 4% em valores corrigidos pela inflação, levanta preocupações sobre a viabilidade de concluir as obras em andamento. A BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM), é vista como um vetor de desmatamento, e sua pavimentação é criticada por ambientalistas. O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) anunciou contratos que somam mais de R$ 1,3 bilhão para intervenções nessa rodovia, mas a execução do orçamento rodoviário é considerada crítica, com uma pesquisa indicando que seriam necessários R$ 49,93 bilhões apenas para a manutenção das estradas federais. Outro projeto problemático é o Pedral do Lourenço, que restringe a navegação no rio Tocantins e cujo custo estimado para remoção das pedras é de R$ 1,1 bilhão. Em Pernambuco, a Transnordestina continua sendo uma promessa não cumprida, com a proposta orçamentária de 2027 reservando apenas R$ 53,4 milhões para a obra. Na transposição do São Francisco, embora os canais centrais já estejam transportando água, ainda há pendências que precisam ser resolvidas. O orçamento federal destina R$ 561 milhões para a ação de integração do Eixo Norte, que envolve diversas intervenções. O TCU (Tribunal de Contas da União) registrou 4.215 projetos com paralisações em 2026, o que evidencia a magnitude do desafio que o governo Lula terá pela frente. O Ministério dos Transportes ressaltou que a análise do orçamento deve considerar a transferência de rodovias à iniciativa privada, o que poderia aliviar a pressão sobre os recursos públicos. Em relação à BR-319, o ministério planeja um leilão de parceria público-privada em dezembro de 2027, enquanto o Dnit informa que as intervenções no Pedral do Lourenço estão em fase de pré-mobilização, com previsão de início em março de 2027. Para a Transnordestina, o ministério afirma que já há um contrato de obra pública em andamento, mas a retomada depende da conclusão de etapas e exigências dos órgãos de controle. Esses desafios colocam o governo Lula em uma posição delicada, onde a necessidade de avançar em infraestrutura se choca com a realidade de um orçamento restrito e a urgência de atender às demandas ambientais e sociais. O sucesso ou fracasso na conclusão dessas obras poderá impactar significativamente a imagem do governo e o futuro da infraestrutura no Brasil.




