A Argentina se prepara para a visita do papa Leão 14, marcada para os dias 8 a 11 de novembro, e a devoção a santos populares como Gauchito Gil, Difunta Correa e San La Muerte ganha destaque nesse contexto. Enquanto a Igreja Católica não reconhece essas figuras, a fé popular em torno delas continua a crescer, especialmente nas periferias e áreas rurais do país. Essa relação entre a devoção popular e a Igreja é complexa, marcada por aceitação e rejeição, refletindo as dinâmicas sociais e culturais da Argentina.
A visita do papa, que se recupera de uma cirurgia para remoção de câncer no pulmão, ocorrerá após sua passagem pelo Uruguai e antes de seguir para o Peru. Este evento não apenas atrai a atenção da mídia, mas também resgata discussões sobre a fé e a espiritualidade dos argentinos, que frequentemente se entrelaçam com as tradições locais.
O culto a Gauchito Gil, por exemplo, é um dos mais emblemáticos do país. Considerado o protetor dos motoristas e dos vulneráveis, sua história remonta ao século 19, quando teria sido um desertor do Exército. Suas festividades atraem centenas de milhares de peregrinos anualmente, especialmente o evento do dia 8 de janeiro em Mercedes, que pode reunir entre 300 mil e 400 mil fiéis. Entre eles está Juan Pablo Ezeiza, um entregador de 37 anos, que afirma ter consolidado sua devoção após um pedido atendido. “Acredito que ele me protege”, diz.
A Difunta Correa, outra figura central na devoção popular, é vista como uma mãe que morreu tentando alimentar seu filho. Sua história de sacrifício e amor maternal ressoa fortemente entre os devotos, que frequentemente deixam oferendas em seus santuários, como garrafas de água e flores. Para muitos, essas práticas são uma forma de buscar proteção e ajuda em momentos de necessidade.
A relação da Igreja com esses cultos é ambígua. Embora a Igreja Católica não reconheça oficialmente esses santos, muitos fiéis se sentem atraídos por suas histórias e pela comunidade que se forma em torno deles. O historiador Diego Mauro, vice-diretor do ISHIR-Conicet, destaca que as devoções populares são fundamentais na forma como os argentinos vivenciam a fé, comparando as práticas em santuários dedicados a Gauchito Gil e Difunta Correa às tradições marianas.
Essa intersecção entre a devoção popular e a Igreja Católica se torna ainda mais evidente com a canonização recente da beata Mama Antula, a primeira santa argentina. A canonização não apenas legitima a fé popular, mas também desafia a Igreja a considerar a diversidade de crenças e práticas que coexistem no país. Os santos populares não são apenas figuras de culto, mas também símbolos de resistência e apoio social para as classes marginalizadas, refletindo a complexidade da identidade argentina.
À medida que a visita do papa se aproxima, a expectativa em torno do evento cresce, mas também traz à tona as tensões entre a tradição católica e a devoção popular. Para muitos argentinos, a fé não se limita aos altares do Vaticano, mas se manifesta nas ruas, nas festas e nas histórias que atravessam gerações. O desafio para a Igreja será encontrar um espaço de diálogo e reconhecimento dessas práticas, que são parte intrínseca da cultura e da espiritualidade do povo argentino.



