As eleições de 2026 prometem ser um marco importante para o Brasil, com a renovação de dois terços das 54 cadeiras do Senado. O cenário atual, marcado por uma crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e escândalos de corrupção, como o caso Master, traz à tona as expectativas da população em relação aos novos senadores. Segundo analistas, as prioridades dos eleitos vão muito além da simples aprovação ou cassação de mandatos de ministros do STF.
A doutora em Sociologia, Marize Schons, destaca que o papel do senador não se limita apenas a fiscalizar, mas também a vincular repasses orçamentários a resultados concretos. Ela observa que, apesar de a função do Senado ser claramente definida, os legisladores frequentemente assumem responsabilidades que vão além do que está formalmente estipulado. “A hipertrofia de papéis informais tende a diluir a responsabilidade fiscalizatória que lhe é própria”, analisa Schons, enfatizando que as investigações estão sempre ligadas a interesses políticos.
A socióloga também ressalta que o voto econômico terá um papel crucial nas próximas eleições, dada a relevância de questões como renda, emprego e custo de vida para os eleitores. “O orçamento está esfolado, comprimido pelo avanço das despesas obrigatórias”, afirma. Com a taxa Selic em 14% ao ano, o crédito se torna mais caro, enquanto a inflação continua a corroer a renda das famílias. Nesse contexto, a sociedade espera que os parlamentares eleitos adotem uma postura austera em relação aos recursos públicos.
Além das questões econômicas, o Senado também enfrenta um “ecossistema de poder” que inclui corrupção e crime organizado. Schons argumenta que o Poder Legislativo não é um mero observador, mas parte integrante do sistema que busca fiscalizar. Portanto, qualquer agenda legislativa precisa partir dessa consciência para evitar que normas sejam neutralizadas pelos próprios legisladores.
O analista político Daniel Pinheiro, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), observa que a ideologia dos candidatos a senador e deputado se tornou um tema central nas últimas eleições. Embora propostas como trazer recursos para o estado e rever o pacto federativo sejam frequentemente mencionadas, elas estão sempre ligadas a um discurso ideológico que ressoa com parte do eleitorado. “Nem todo eleitor sabe a função de cada cargo que está elegendo. Ele compra um pacote”, explica Pinheiro, ressaltando que o alinhamento ideológico atende bem ao perfil do eleitor brasileiro.
As pautas de costumes e a abertura de processos de impeachment de ministros do STF também ganharam destaque nas campanhas, com os eleitos sendo cobrados após o pleito. O professor aponta que, em muitos casos, as pautas mais genéricas se mostram mais atrativas do que as pragmáticas, como as que envolvem economia e segurança pública.
A socióloga Marize Schons também menciona a importância dos meios digitais na forma como os eleitores podem acompanhar o trabalho dos senadores. Cada estado elegerá dois candidatos ao Senado, e ela recomenda que os cidadãos acompanhem a atuação dos parlamentares pela internet. No entanto, alerta que a política não deve ser reduzida a publicações em redes sociais, já que o trabalho parlamentar é medido em presença, voto em plenário e outras atividades legislativas.
Por fim, ao ser questionada sobre a prioridade do impeachment de ministros do Supremo, Schons argumenta que a configuração da Suprema Corte, a partir das indicações do presidente eleito, terá um impacto muito maior nos rumos do STF do que a possibilidade de processos de cassação pelo Senado. O próximo presidente poderá indicar até quatro ministros ao STF até 2030, o que poderá moldar o futuro do Judiciário brasileiro.



