O Brasil se prepara para ir às urnas neste domingo (4), e a presença da China no debate eleitoral tem sido quase invisível nas campanhas. Em um ano marcado por crises como o caso Banco Master e as tensões com o STF, o gigante asiático só aparece quando é utilizado como argumento político. Flávio Bolsonaro, por exemplo, criticou o governo Lula em Natal, afirmando que este “lambe bota da China”, ao mesmo tempo em que prometeu uma relação “pragmática” com os chineses. Por outro lado, Lula, que optou por uma entrevista ao Flow Podcast em vez de participar de debates, elogiou os investimentos chineses na América Latina, destacando a “ousadia” dos investidores.
Ambos os candidatos parecem compartilhar a ideia de que o Brasil pode manter uma postura neutra entre Pequim e Washington. No entanto, essa visão pode não se sustentar no próximo mandato, independentemente de quem vença. Essa abordagem foi viável enquanto as relações comerciais se limitavam a produtos como soja e minério de ferro, já que os Estados Unidos nunca pressionaram o Brasil a interromper suas exportações para a China, que representa cerca de 30% de tudo que o Brasil vende ao exterior.
Contudo, a dinâmica pode mudar com a crescente importância dos minerais críticos, como as terras raras, que são essenciais para a produção de tecnologia avançada e que a China controla quase que totalmente. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, perdendo apenas para a própria China, o que torna Goiás um ponto focal nessa disputa. Recentemente, a empresa americana USA Rare Earth adquiriu a mina de Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões, com o Pentágono investindo mais US$ 750 milhões no projeto, antes mesmo de Pequim propor uma parceria com Brasília. A chinesa CMOC, que já opera na região desde 2016, comprou minas de nióbio da Anglo American, evidenciando a competição entre as potências.
Flávio Bolsonaro deixou claro seu posicionamento em março, ao se apresentar em um evento conservador em Dallas como a resposta americana ao domínio chinês sobre esses recursos. Em uma reunião com doadores ligados a J.D. Vance, o vice de Trump, um aliado de Flávio apresentou um documento que prometia aos Estados Unidos uma cadeia de suprimentos alternativa à chinesa. Embora tenha afirmado que o texto não tinha relação com a campanha, sua marca estava evidente.
Por outro lado, Lula defende que o minério seja processado no Brasil, independentemente do país parceiro. A lei sancionada por ele em 16 de setembro criou um conselho ligado à Presidência para avaliar a participação estrangeira em projetos estratégicos, mas essa neutralidade não é suficiente para agradar Washington, que já pediu ao Itamaraty que reavalie a venda de minas de níquel da Anglo American para a MMG, uma empresa chinesa.
Decisões importantes, como a cota de carne bovina que a China abrirá ao Brasil em 2026, também ficarão a cargo do próximo governo. A cota atual já se esgotou, e o excedente está sujeito a uma sobretaxa de 55%. A ampliação do limite para 2027 será responsabilidade do novo presidente. Em 2026, Xi Jinping presidirá o Brics, um bloco que Flávio Bolsonaro não menciona em seu plano de governo.
Se Flávio vencer, é provável que o agronegócio mantenha seu comércio com a China, mas a situação das terras raras pode ser bem diferente. Caso Lula seja o vencedor, ele enfrentará pressões de Washington, especialmente em relação a tarifas que já foram utilizadas para questionar negócios com os chineses. A relação entre Brasil e China, portanto, está longe de ser simples e continuará a ser um tema central nas discussões políticas futuras.



