Em um diagnóstico alarmante sobre a economia brasileira, o economista e ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga, comparou o país a um paciente com febre de 42 graus, enfatizando a urgência de reformas fiscais e a preservação das instituições. A declaração foi feita durante o lançamento do site C-Level, em São Paulo, em uma conversa com o jornalista Fernando Canzian.
Fraga destacou que a situação fiscal do Brasil é insustentável e requer ações imediatas para evitar um colapso. “O Brasil é um paciente que está mostrando uma febre maior, de 42 graus. Não dá para continuar”, afirmou, referindo-se à necessidade de reformas que vão além da economia, tocando também em questões institucionais.
Ele apontou que o próximo governo terá a responsabilidade de conter o crescimento da dívida pública e que o Senado tem um papel crucial nesse processo, mencionando a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). “Acho que o Senado, particularmente, tem uma missão enorme pela frente, que é ‘impichar’ dois, três que são óbvios”, disse Fraga.
A análise do economista também incluiu a interação entre a política fiscal e monetária, que atualmente se encontram em um impasse, elevando as taxas de juros. Ele alertou que o governo brasileiro está tomando empréstimos a curto prazo com juros que superam a inflação, uma situação que não pode se sustentar a longo prazo.
Fraga fez um paralelo entre a economia brasileira e o aquecimento global, ressaltando que não se deve esperar para descobrir o ponto de não retorno. Para evitar que o Brasil chegue a essa situação, ele mencionou a necessidade de uma nova reforma da Previdência, que deve ser adaptada às realidades demográficas do país. “A Previdência brasileira é gigante e generosa pelos padrões globais. Se começarmos a cuidar do que vai acontecer daqui a 10, 20, 30 anos, isso ajuda muito”, afirmou.
Ele também defendeu a reforma administrativa, que visa reduzir a folha de pagamentos do Estado, e melhorias no sistema tributário, que atualmente apresenta gastos elevados. Fraga acredita que essas mudanças devem ser implementadas de forma gradual, com a entrega de resultados primários realistas.
Além disso, o ex-presidente do BC expressou preocupação com a alta dos juros americanos, que diminui a atratividade do Brasil para investidores. Ele enfatizou que a combinação de juros elevados e fragilidades institucionais representa um grande desafio para a economia nacional.
Fraga concluiu sua análise alertando sobre o risco de frustração das expectativas da população em relação ao crescimento econômico. “Quando há um alívio momentâneo, mas a economia desacelera logo em seguida, a distância entre a expectativa criada e a realidade pode gerar revolta social e instabilidade política”, disse.
Por fim, ele ressaltou a interconexão entre política fiscal, pobreza, informalidade e produtividade, afirmando que, embora o Bolsa Família seja essencial, a verdadeira emancipação da população depende de educação de qualidade, saúde preventiva e condições para a mobilidade social.



