Post: Discurso de Lula na ONU: tensões e incertezas marcam a relação com os EUA

Lula discursa na ONU em meio a tensões com os EUA, buscando equilibrar soberania e relações comerciais.
Discurso de Lula na ONU: tensões e incertezas marcam a relação com os EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se prepara para discursar na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22), em um momento crítico para as relações entre Brasil e Estados Unidos. A poucos dias das eleições brasileiras, Lula enfrenta um cenário de tensões comerciais e a possibilidade de sanções do governo Trump contra autoridades brasileiras. Até o momento, não há agendado um encontro formal entre Lula e Trump, embora uma conversa informal não possa ser descartada. Tradicionalmente, o Brasil é o primeiro país a discursar na abertura do debate geral da ONU, seguido pelo presidente dos EUA, o que pode facilitar um encontro nos corredores do evento, como ocorreu no ano anterior.

Durante a campanha, Lula expressou o desejo de conversar com Trump para pedir que ele não interfira nas eleições brasileiras. “Na ONU eu sou o primeiro a falar, depois que eu falo, fala o Trump. Ele vai estar atrás de mim olhando eu falar e depois eu vou ficar olhando ele falar. Eu vou falar, ‘ou baixinho’, ele é mais alto que eu, ‘eu vou dizer: eu não me meto nas eleições americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano, você foi eleito e eu respeito o resultado das eleições. Por favor, não mexa com filho da dona Lindu porque eu gosto de todo mundo, de respeitar e gosto de ser respeitado'”, afirmou Lula em um ato de campanha em Porto Alegre.

A BBC News Brasil transmitirá ao vivo o discurso de Lula, que, segundo informações, não deve mencionar Trump de forma crítica. A defesa da soberania nacional e da democracia será um dos focos do discurso, assim como a promoção do multilateralismo e a necessidade de mudanças na estrutura da ONU. Além disso, Lula deve abordar questões relacionadas às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, bem como a situação em Gaza.

Outro tema que ganhou destaque é o combate ao crime organizado. O presidente deverá enfatizar a importância da cooperação internacional no enfrentamento das facções, ao mesmo tempo em que reafirma que as políticas de segurança no Brasil devem respeitar a soberania nacional. Essa questão se torna particularmente sensível após o governo Trump classificar as organizações brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas, o que gera preocupações no Planalto sobre possíveis interferências nas questões internas do país.

No que diz respeito às relações comerciais, Lula deverá criticar a imposição unilateral de barreiras tarifárias, mas sem transformar seu discurso em um ataque direto ao governo americano. A estratégia é apresentar uma defesa clara da autonomia brasileira, evitando um confronto que possa prejudicar as tentativas de melhorar as relações com Washington. Esse equilíbrio se torna ainda mais relevante com a proximidade das eleições, que ocorrerão em 4 de outubro, apenas 12 dias após o discurso na ONU.

Analistas acreditam que é difícil dissociar completamente o pronunciamento internacional da campanha eleitoral, embora o governo afirme que o discurso não terá caráter eleitoral. Para Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da King’s College London, um confronto direto com Trump não traria benefícios diplomáticos significativos ao Brasil. Contudo, a proximidade das eleições torna o público doméstico um fator importante no discurso de Lula.

“Um confronto direto com Trump teria pouco benefício diplomático para o Brasil. Ao mesmo tempo, Lula chega à ONU a poucos dias das eleições, então o público doméstico tem um peso grande neste discurso. Eu esperaria uma defesa bastante clara da soberania e da democracia, mas não necessariamente com uma fala nominal contra Washington”, afirma a especialista. A busca de Lula por uma relação funcional com Trump, enquanto defende a soberania brasileira, não são estratégias excludentes. “Lula pode buscar uma relação pessoal funcional com Trump e, ao mesmo tempo, enfatizar perante o eleitorado brasileiro que existem limites claros para essa aproximação”, completa. Nesse contexto, a possibilidade de um encontro entre os dois presidentes nos bastidores da ONU ganha relevância. Embora encontros informais em eventos como a Assembleia Geral sejam frequentemente coreografados, um breve encontro poderia sinalizar que os canais de diálogo permanecem abertos. Para Andreza Aruska, mesmo um encontro rápido não resultaria em ações imediatas, mas serviria como um sinal importante para as relações entre os dois países.

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