O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, revelou que o governo brasileiro pode alcançar um ajuste fiscal significativo sem a necessidade de cortes drásticos nos gastos, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito. Em entrevista, Moretti destacou que o resultado primário do Brasil, que exclui o pagamento de juros, pode melhorar em até dois pontos percentuais do PIB ao longo de um novo mandato, passando de um déficit para um superávit. Essa estratégia se baseia na desaceleração do crescimento das despesas obrigatórias, um esforço que, segundo ele, já está em andamento.
Moretti, que assumiu o ministério em março após atuar na Casa Civil, enfatizou a importância de controlar as despesas obrigatórias para que o governo possa demonstrar compromisso com a responsabilidade fiscal. Ele se mostrou cético em relação ao que chamou de “ajuste fiscal suave”, ressaltando que o governo precisa adotar medidas concretas para conter a dívida pública, que aumentou cerca de 10 pontos percentuais desde 2023, atingindo 82,5% do PIB.
Apesar das preocupações dos investidores, que ainda aguardam detalhes sobre como o governo pretende lidar com a dívida, Moretti apresentou uma proposta de Orçamento para 2027 que prevê um superávit primário de R$ 18,6 bilhões, equivalente a 0,13% do PIB. Essa proposta representa uma melhora significativa em relação ao déficit primário projetado de 0,4% do PIB para 2026, sinalizando um avanço de mais de meio ponto percentual.
Além de melhorar o resultado primário, o governo também precisa implementar novas políticas para manter o crescimento dos gastos dentro dos limites do arcabouço fiscal. Moretti ressaltou que a desindexação dos benefícios previdenciários do salário mínimo não é uma opção viável, uma vez que a Previdência é um instrumento fundamental de proteção social.
À medida que as eleições se aproximam, a disputa entre Lula e seu rival de direita, Flávio Bolsonaro, se intensifica, com pesquisas indicando uma diminuição da vantagem de Lula. O primeiro turno está agendado para 4 de outubro, seguido por um segundo turno três semanas depois. Nesse contexto, Moretti também abordou a crescente preocupação dos investidores em relação ao uso de crédito subsidiado pelo governo e outras medidas de estímulo. O Orçamento de 2027 destina R$ 97,9 bilhões para empréstimos subsidiados, o que, segundo críticos, pode elevar a dívida pública.
No entanto, Moretti defendeu a ideia de que esses subsídios são moderados e podem gerar retornos significativos. Ele também refutou a noção de que esses programas poderiam prejudicar a capacidade do Banco Central de controlar a inflação, argumentando que fatores externos, como mudanças climáticas e flutuações nos preços do petróleo, também influenciam as expectativas de inflação.
A gestão fiscal do governo Lula, portanto, enfrenta desafios significativos, mas Moretti acredita que é possível alcançar um equilíbrio nas contas públicas sem comprometer os direitos sociais dos brasileiros. “A era da gratidão acabou”, afirmou, enfatizando que as políticas precisam demonstrar melhorias concretas na qualidade de vida da população. A busca por um ajuste fiscal, portanto, deve ser acompanhada de um compromisso com o bem-estar social e o desenvolvimento econômico do país.




