Uma enchente repentina no Grand Canyon, famoso desfiladeiro dos Estados Unidos, resultou em pelo menos duas mortes e no resgate de cerca de 80 pessoas no último fim de semana. As autoridades continuam os trabalhos de busca e resgate, após a inundação que ocorreu na tarde de sábado (29) na trilha mais popular do Parque Nacional do Grand Canyon, localizado no Arizona. O parque, que é o quarto mais visitado dos EUA, recebeu mais de 4,4 milhões de visitantes em 2025.
As águas da enchente arrastaram grandes rochas e destroços em direção ao rio Colorado, causando danos significativos à infraestrutura do parque. As autoridades alertaram sobre a previsão de novas chuvas e tempestades, que podem provocar mais inundações na região. Este fenômeno é um risco conhecido para os visitantes do Grand Canyon, especialmente durante o verão no Hemisfério Norte.
Entretanto, este ano, fatores climáticos adicionais podem ter agravado as enchentes e suas consequências. Entre eles estão os vestígios de um incêndio florestal do ano passado, uma seca persistente na região e a presença do fenômeno El Niño. O verão nos EUA coincide com o período de monções, quando a região, tipicamente árida, recebe chuvas intensas após dias de céu limpo.
O governo estadual do Arizona informou que, em média, por volta de 15 de junho, os ventos predominantes mudam de um fluxo seco do oeste para um fluxo úmido do sul. Durante esse período, a pressão na camada superior da atmosfera aumenta, favorecendo a formação de tempestades, especialmente nas regiões montanhosas.
As chuvas são essenciais para reabastecer lençóis freáticos e sustentar a vida selvagem, mas também representam riscos significativos. O que seria uma chuva forte em outras regiões pode se transformar em uma poderosa parede de água no interior do Grand Canyon. Antes da tempestade mais intensa, que durou cerca de 30 minutos, várias chuvas já haviam ocorrido, atingindo áreas afetadas por incêndios anteriores.
O incêndio Dragon Bravo, que ocorreu em julho de 2025, queimou durante dias e resultou em evacuações, além de destruir uma histórica acomodação da região. A falta de vegetação nas áreas queimadas pode ter acelerado o escoamento da água, reduzindo a capacidade do solo de absorver a chuva, um problema comum em ambientes áridos como o Arizona.
Além disso, o Grand Canyon enfrenta um período prolongado de seca, que fez com que os níveis do rio Colorado atingissem mínimas históricas. Especialistas associam essa situação às mudanças climáticas, que podem ter potencializado o impacto das enchentes recentes. A geografia íngreme e rochosa do cânion também contribui para a rápida canalização da água, aumentando o risco para os visitantes.
A temporada de monções deste ano está especialmente intensa devido ao aumento do vapor d’água na atmosfera, resultado do forte El Niño. O aquecimento de partes do oceano Pacífico pode alterar padrões climáticos em escala global, e esse excesso de vapor d’água acaba sendo descarregado em forma de chuva durante as tempestades.
A relação entre a mudança climática provocada pela atividade humana e as chuvas intensas no Arizona é consistente, conforme aponta o cientista climático Daniel Swain, do Instituto de Recursos Hídricos da Califórnia. Um estudo recente mostrou que, desde 2000, chuvas intensas de curta duração no oeste dos Estados Unidos se tornaram 10% mais fortes.
A única tubulação que abastece de água os milhões de visitantes do Grand Canyon foi gravemente danificada pelas enchentes. Autoridades estimam que cerca de 40% da tubulação foi comprometida. Essa tubulação, concluída na década de 1970, já havia rompido mais de 85 vezes desde 2010 e transporta água de um lado do cânion até sua base.
Um projeto de US$ 208 milhões para reabilitar a tubulação e modernizar o sistema de abastecimento foi iniciado em 2023, mas o cronograma de conclusão agora é incerto devido aos danos recentes.




