Em 9 de agosto de 1945, a cidade de Nagasaki foi devastada por uma bomba atômica, marcando um dos momentos mais sombrios da história da humanidade e o fim da Segunda Guerra Mundial. Trinta anos após esse evento catastrófico, o físico americano Philip Morrison, que desempenhou um papel crucial no Projeto Manhattan, compartilhou suas reflexões sobre as decisões que levaram ao lançamento da bomba em uma entrevista à BBC.
Morrison, que trabalhou no laboratório de Los Alamos sob a direção de J. Robert Oppenheimer, foi fundamental na construção da bomba de plutônio conhecida como “Fat Man”. Ele recordou como transportou o núcleo de plutônio até o Novo México e, posteriormente, ajudou a montá-la na ilha de Tinian. Naquele momento, o laboratório estava em plena atividade, preparando-se para o que seria um ataque sem precedentes.
Em seu depoimento, Morrison descreveu a magnitude dos preparativos para o bombardeio. “No porto, navios-tanque chegavam diariamente com milhares de toneladas de gasolina para os aviões. A cada 15 segundos, um B-29 decolava, incendiando vastas áreas de uma cidade em um único ataque”, relembrou. Em contraste, o ataque atômico foi realizado com uma equipe reduzida e em um ambiente desolado, onde um único avião decolou, levando consigo a destruição.
As consequências foram devastadoras. Estima-se que cerca de 40 mil pessoas morreram instantaneamente em Nagasaki, com mais de 100 mil mortes atribuídas nos anos seguintes. Em Hiroshima, o número de mortos chegou a aproximadamente 140 mil. Morrison, que mais tarde avaliou os danos, recordou a cena de um funcionário japonês em meio aos escombros, que exclamou: “Tudo isso causado por uma única bomba; é insuportável”.
Apesar de sua participação, Morrison esperava que a bomba não fosse usada em combate. Ele e um grupo de físicos de Los Alamos defendiam uma demonstração pública da bomba antes de seu uso. “Queriamos convidar uma delegação internacional para o deserto”, disse ele, reconhecendo que essa ideia era uma ilusão em tempos de guerra.
A morte do presidente Franklin D. Roosevelt, em abril de 1945, foi um ponto crucial. Morrison acreditava que, se Roosevelt estivesse vivo, ele poderia ter mudado o curso dos eventos. “Ele era a única pessoa com prestígio suficiente para interromper o projeto”, afirmou. Com a ascensão de Harry Truman à presidência, a decisão de lançar as bombas já estava em andamento, e Morrison observou que Truman foi tomado pela situação, sem a capacidade de reverter o processo.
Morrison destacou que não havia uma distinção entre a primeira e a segunda bomba; as ordens eram claras: lançar ambas assim que possível. Para ele, seria necessário um líder forte para reconsiderar a devastação causada pela primeira explosão, algo que se tornou praticamente impossível após a morte de Roosevelt. O relato de Morrison oferece uma visão perturbadora sobre as complexas decisões que cercaram o uso da bomba atômica e as suas consequências catastróficas para a humanidade.




