Post: Promessas de Lula e Flávio não esclarecem como financiar gastos

Análise das promessas de Lula e Flávio sobre gastos públicos e sustentabilidade fiscal nas eleições 2026.
Promessas de Lula e Flávio não esclarecem como financiar gastos

As propostas de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm gerado discussões acaloradas entre economistas, que apontam a falta de clareza sobre como os candidatos pretendem equilibrar as contas públicas. Ambos os programas apresentam promessas ambiciosas, mas evitam detalhar as medidas necessárias para garantir a sustentabilidade fiscal, um aspecto crucial para o futuro do país, independentemente de quem vença as eleições.

Segundo Sergio Vale, da MB Associados, é comum que temas impopulares sejam omitidos em planos de governo. Ele observa que tanto o programa de Lula quanto o de Flávio não abordam questões essenciais, como a gestão das emendas parlamentares e as reformas na Previdência, saúde e educação. Vale destaca que o programa de Flávio apresenta uma incoerência ao prometer cortes de gastos e impostos, enquanto também planeja aumentar despesas em áreas como infraestrutura e segurança pública.

O programa do PT, por sua vez, foca em controlar o aumento dos gastos, com a expectativa de que uma retomada do crescimento econômico possa levar a um resultado fiscal primário positivo. Gustavo Pessoa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ressalta que ambos os programas se concentram nas propostas mais populares, evitando aquelas que poderiam gerar reações negativas entre os eleitores. O texto de Lula, segundo ele, sugere uma continuidade do modelo de Estado intervencionista, enquanto o de Flávio se posiciona como liberal, prometendo reduzir a dívida e cortar impostos, mas sem esclarecer como isso seria viável.

A questão do orçamento é alarmante, com cerca de 91% dele dedicado a gastos correntes, que são essenciais para o funcionamento da máquina pública. Isso deixa pouco espaço para manobras fiscais, e não há discussões sobre como implementar restrições a essas despesas. A taxa de juros elevada, atualmente em 14%, é um desafio reconhecido por ambos os candidatos, mas nenhum deles apresenta soluções concretas para permitir sua redução.

Tatiana Pinheiro, também da FGV, observa que o programa de Lula é menos específico em comparação ao de 2022, que incluía compromissos claros como a valorização do salário mínimo e a reforma tributária. Flávio, por outro lado, traz propostas mais concretas, como o “Tesouraço”, que combina cortes de despesas, reforma administrativa e redução de impostos. No entanto, a falta de clareza sobre as fontes de financiamento para as promessas sociais de Lula é uma preocupação crescente entre os analistas.

Juliana Inhasz, do Insper, critica a ausência de menções à reforma da Previdência no programa de Lula, que deveria ser uma prioridade. Ela argumenta que o plano busca agradar a base eleitoral com um governo mais participativo e custoso, mas sem um desenho claro de como sustentá-lo financeiramente. O programa de Flávio é descrito como uma tentativa de se alinhar com a agenda de Javier Milei, presidente da Argentina, apresentando um discurso liberal, mas com um tom moderado que visa conquistar eleitores indecisos que não desejam o fim dos programas sociais.

Nelson Marconi, da FGV, que participou da elaboração do programa de Ciro Gomes em 2018 e 2022, explica que os textos são inicialmente elaborados por equipes técnicas e, em seguida, passam pela revisão da equipe de campanha, que tende a suavizar as propostas para evitar compromissos com temas polêmicos. Essa estratégia pode explicar a falta de detalhes nos programas apresentados por Lula e Flávio, que buscam evitar aumentar a rejeição entre os eleitores ao abordar cortes e ajustes fiscais.

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