Na última quarta-feira (5), o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro fez uma declaração que gerou reflexões sobre o papel das mulheres na sociedade. Ao afirmar que teve duas filhas para garantir que teria quem cuidasse dele na velhice, ele expôs uma expectativa comum em diferentes culturas: a de que os filhos, especialmente as filhas, serão a proteção na fase mais vulnerável da vida.
Essa ideia não é nova. Há dezoito anos, um homem chamado Pak Sudarno, que vivia em condições precárias em Bandung, na Indonésia, expressou uma visão semelhante. Ao ser questionado sobre a felicidade de ter nove filhos, ele respondeu que sim, pois acreditava que alguns deles prosperariam e cuidariam dele quando envelhecesse. Essa narrativa é explorada pelos economistas Abhijit Banerjee e Esther Duflo em “A Economia dos Pobres”, onde discutem como a falta de alternativas financeiras leva as pessoas a ter mais filhos como uma estratégia de segurança econômica.
Voltando ao Brasil, a expansão da previdência rural ilustra como mudanças nas condições econômicas podem impactar as decisões familiares. Um estudo realizado por Alexander Danzer e Lennard Zyska revelou que, com o aumento da renda esperada na velhice, houve uma diminuição no número de filhos que mulheres em idade fértil optaram por ter, reduzindo em 1,3 o número total de filhos ao final da vida reprodutiva. Isso sugere que, à medida que as mulheres se tornam mais seguras financeiramente, a necessidade de depender dos filhos para cuidados na velhice diminui.
Entretanto, a realidade do cuidado ainda recai desproporcionalmente sobre as mulheres. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 mostram que entre os idosos brasileiros com limitações funcionais, 81,8% recebiam apenas auxílio informal, e as mulheres ocupavam 97,8% dos postos de cuidado direto e doméstico. Em contraste, apenas 32,9% das mulheres contribuíam para a Previdência, evidenciando a fragilidade do mercado de trabalho feminino e a continuidade da divisão de tarefas de cuidado na esfera familiar.
Essa divisão de responsabilidades não é apenas uma questão de prática, mas também de percepção social. A linguagem que usamos pode reforçar essas normas. Por exemplo, quando se diz que um homem “ajuda” no cuidado, isso implica que a responsabilidade primária é da mulher. O relatório “Inclusão produtiva e economia do cuidado”, da Fundação Arymax e do Instituto Veredas, desafia essa visão, propondo que as atividades de cuidado sejam reconhecidas como trabalho qualificado e compartilhado.
Experiências em 314 escolas públicas na Índia demonstraram que discussões sobre igualdade de gênero podem levar os alunos a reconsiderar suas posições sobre o tema. Embora os meninos relataram assumir mais tarefas domésticas, as meninas não relataram uma diminuição em suas responsabilidades. Isso sugere que, enquanto os meninos tomam a iniciativa, as meninas ainda dependem da aceitação dos outros para aliviar sua carga de trabalho.
Para que haja uma redistribuição efetiva das responsabilidades de cuidado, é necessário que existam condições que permitam que novas atitudes sejam colocadas em prática. Sem acesso a serviços de cuidado acessíveis ou renda suficiente para contratar ajuda, a responsabilidade tende a recair sobre quem já cuida da casa, geralmente mulheres.
No Brasil, é fundamental entender como as famílias decidem quem será responsável pelo cuidado antes que a dependência se torne evidente. É preciso investigar em que condições essa divisão é renegociada e se a comunicação e os serviços disponíveis realmente alteram a dinâmica do trabalho realizado. Além disso, é crucial que a profissionalização do cuidado não apenas transfira essa responsabilidade de mulheres não remuneradas para mulheres mal remuneradas, mas que valorize o cuidado como uma atividade essencial para a sociedade.




