Post: El Niño pode impactar produção de commodities agrícolas e elevar preços

nio - El Niño ameaça produção de commodities agrícolas, elevando preços e risco de escassez de alimentos até 2027.
El Niño pode impactar produção de commodities agrícolas e elevar preços

O fenômeno climático El Niño, que se intensifica a cada dois a sete anos, ameaça a produção de algumas das commodities agrícolas mais negociadas no mundo, resultando em oscilações acentuadas nos preços e aumentando o risco de escassez de alimentos e inflação. De acordo com informações recentes, os preços do café e do cacau já começaram a subir em resposta a expectativas de perdas nas safras do Brasil, da África Ocidental e do Sudeste Asiático.

Desde o início de junho, o preço do café arábica aumentou cerca de 30%, alcançando US$ 3,12 (R$ 15,91) por libra, com a maior alta em um único dia registrada em 47 anos. O cacau também apresentou um aumento significativo, com os contratos futuros em Nova York subindo mais de 63%, passando de aproximadamente US$ 3.950 (R$ 20.145) por tonelada para um pico de US$ 6.455 (R$ 32.920) em julho, antes de recuar para US$ 5.600 (R$ 28.560).

Analistas do Rabobank observaram uma correlação crescente entre os preços do café e do cacau, indicando que os investidores estão aplicando um “prêmio de risco do El Niño” nas commodities agrícolas. O Banco Central Europeu estima que eventos fortes de El Niño podem elevar os preços globais das commodities alimentares em até 9%. Economistas do Jefferies alertaram que, em meio à pressão já existente sobre os preços devido à guerra entre os EUA e o Irã, esse efeito pode ser ainda mais acentuado.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) reportou uma probabilidade de 97% de que o El Niño atual persista até a primavera de 2027, com 81% de chance de se tornar “muito forte” entre outubro e dezembro deste ano, posicionando-se entre os fenômenos mais intensos desde 1950. Essa situação se agrava em um cenário onde os agricultores já enfrentam uma crise de fertilizantes, exacerbada pela interrupção dos fluxos de energia e commodities devido à guerra entre Irã e EUA.

A escassez de fertilizantes pode forçar os agricultores a reduzir sua aplicação em um momento em que as lavouras já estão vulneráveis a secas, calor extremo ou chuvas excessivas, comprometendo a resistência das plantas a condições climáticas adversas. Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), expressou preocupação com a produção de trigo duro e arroz, destacando que a combinação do El Niño e a diminuição do uso de fertilizantes em países como Austrália e Índia pode prejudicar a produtividade.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU estima que o El Niño pode levar pelo menos mais 49 milhões de pessoas à insegurança alimentar aguda até o final de 2027. Carl Skau, diretor-executivo interino do PMA, afirmou que o fenômeno representa uma ameaça significativa à segurança alimentar de milhões de pessoas já vulneráveis.

O primeiro impacto físico do El Niño já é visível no Peru, onde a pesca de anchoveta foi suspensa devido às águas excepcionalmente quentes no Pacífico, resultando em um aumento nos preços da farinha de peixe e do óleo de peixe. O cacau, que é particularmente vulnerável ao El Niño, tem 88% de sua produção concentrada na África Ocidental, no Equador e no Sudeste Asiático, regiões que geralmente são negativamente afetadas pelo fenômeno. Historicamente, episódios fortes de El Niño coincidiram com perdas significativas na produção de cacau, com quedas de até 12% em eventos anteriores.

Os mercados de café também estão precificando a possibilidade de um impacto climático prolongado. O Rabobank destacou que os preços elevados dos contratos futuros de robusta refletem uma preocupação crescente com a duração do evento até 2027. Vietnã, Indonésia e Índia, que são grandes produtores de café robusta, enfrentam temperaturas mais altas e clima seco durante o El Niño, o que pode comprometer a irrigação das plantações e afetar a safra de 2027-28.

Para a safra de café arábica do Brasil, o efeito mais consistente do El Niño é o aumento das temperaturas, que pode reduzir o risco de geadas, mas também apresenta desafios significativos para a produção a longo prazo. A combinação de fatores climáticos adversos e a crise de fertilizantes coloca a agricultura global em uma posição delicada, exigindo atenção e estratégias adequadas para mitigar os impactos do El Niño nas commodities agrícolas e na segurança alimentar mundial.

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