Post: A elevação da meta de inflação após ajuste fiscal: um risco desnecessário

A proposta de elevar a meta de inflação após ajuste fiscal é arriscada e pode afetar a credibilidade econômica.
A elevação da meta de inflação após ajuste fiscal: um risco desnecessário

A discussão sobre a possibilidade de elevar a meta de inflação após um ajuste fiscal robusto, que varia entre 2,5% e 3% do PIB, tem ganhado destaque no debate econômico brasileiro. A ideia central é que uma dívida elevada, combinada a uma meta de inflação baixa, resulta em juros reais altos por um período prolongado, o que, por sua vez, aumenta as despesas financeiras e pressiona ainda mais a dívida pública. Essa dinâmica pode se tornar um ciclo vicioso, onde a meta baixa e a dívida alta se retroalimentam. O argumento em favor da elevação da meta é que isso poderia alinhar melhor as expectativas do mercado, reduzindo a necessidade de juros reais elevados. No entanto, essa estratégia depende da nova meta ser vista como um parâmetro fixo e confiável. No contexto brasileiro, onde mudanças nas metas são frequentemente debatidas e a autonomia do Banco Central é questionada, essa confiança é difícil de se estabelecer. Desde fevereiro de 2023, o governo tem defendido publicamente a revisão da meta de inflação, enquanto critica a condução da política monetária. Essa postura resultou em um aumento imediato nas expectativas de inflação, conforme indicado pelo relatório Focus. Entre fevereiro e abril, as projeções para 2025 e 2026 subiram, refletindo uma incerteza que persiste mesmo com a expectativa de um ajuste fiscal. A experiência anterior demonstra que uma queda significativa nos juros reais pode ser alcançada sem a necessidade de alterar a meta de inflação. Entre 2015 e 2016, a inflação superou 10%, mas, com a implementação de um teto de gastos e mudanças na política econômica, as expectativas foram reanalisadas, permitindo que os juros reais caíssem para menos de 2% em 2019, enquanto a meta permaneceu inalterada. A proposta de elevar a meta de inflação após um ajuste fiscal não resolve os problemas estruturais da economia. Historicamente, reformas fiscais têm sido aprovadas, mas frequentemente afrouxadas em resposta a pressões políticas. O exemplo da reforma da Previdência de 2019 ilustra bem essa dinâmica, onde regras foram alteradas e exceções foram criadas, levando a um desvio das metas inicialmente estabelecidas. Além disso, a atual composição da dívida pública agrava a situação. Com mais da metade da dívida pública federal atrelada à Selic, qualquer desvio nas expectativas de inflação pode rapidamente levar a um aumento nas taxas de juros, resultando em despesas financeiras adicionais que pressionam ainda mais a dívida. Portanto, a solução para a fragilidade fiscal não reside na elevação da meta de inflação, mas sim na eliminação das fragilidades estruturais que tornam a meta baixa difícil de ser cumprida. Um ajuste fiscal que aborde as raízes do problema já demonstrou eficácia sem a necessidade de mudanças nas metas, como evidenciado entre 2017 e 2019. Elevar a meta de inflação após um ajuste não é uma solução neutra em termos de credibilidade; na verdade, pode sinalizar que o compromisso com a meta é negociável, algo que um ajuste fiscal crível deveria evitar.

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