A tragédia na travessia de milhares de migrantes de Marrocos para Ceuta, um exclave espanhol, deixou um rastro de dor e desespero. Até o último domingo (2), o número de mortos subiu para 72, conforme autoridades espanholas, enquanto famílias marroquinas enfrentam a angústia da incerteza sobre o destino de seus entes queridos. Entre os migrantes, muitos relatam ter tocado em cadáveres durante a travessia, um testemunho sombrio da gravidade da situação. Amina Saadoun, uma jovem mãe, busca seu irmão de 15 anos, Mohammed, que desapareceu na jornada. “Não sei se ele está vivo ou morto”, desabafou Amina, enquanto segurava uma foto do irmão e perguntava a cada migrante que retornava se o havia visto. A travessia, que envolveu cerca de 60 mil pessoas, foi marcada por tragédias pessoais e coletivas, com velórios ocorrendo em cidades como Tetouan, onde muitos dos falecidos eram conhecidos. As autoridades marroquinas e espanholas estão sob pressão, enquanto mães e irmãs perambulam pelas ruas próximas à fronteira, em busca de notícias. A situação é ainda mais complexa, com rumores de que a onda migratória foi impulsionada por manobras políticas, levando as famílias a questionar a vulnerabilidade que levou seus filhos a arriscar tudo. O presidente do governo local de Ceuta, Juan Jesús Vivas, criticou abertamente as autoridades marroquinas, afirmando que a entrada de tantas pessoas sem autorização é inaceitável. “Fomos maltratados e desprezados”, declarou ele, refletindo a frustração crescente com a situação. Hamza, um jovem de 23 anos que conseguiu atravessar, compartilhou sua experiência traumática. Durante a travessia, ele sentiu o toque de um cadáver em sua perna e, após alcançar a costa, foi rapidamente enviado de volta a Marrocos. Ele revelou que essa foi sua segunda tentativa na mesma semana, motivada pela esperança de um futuro melhor. A pressão para deixar o país natal é intensa, e muitos jovens, como Abdulaal, de 16 anos, foram influenciados por relatos otimistas nas redes sociais. Abdulaal vendeu seus tênis para financiar a viagem, mas voltou desiludido, prometendo não tentar novamente. As autoridades de saúde em Ceuta relataram mais de mil atendimentos a migrantes durante o fim de semana, evidenciando o impacto físico e emocional da crise. Hamza, que se feriu ao escalar uma cerca, expressou a dificuldade de resistir ao desejo de deixar Marrocos, descrevendo a busca por uma vida melhor como uma “droga”. O impacto humano da crise se tornou ainda mais evidente com o relato de Rida, de 16 anos, que voltou a Fnideq sem seu irmão de seis anos, Rayan, que morreu durante a travessia. Vestindo roupas esportivas, Rida não sabia para onde ir e chorava pela perda. Enquanto o número de mortos e desaparecidos cresce, a situação em Marrocos e Ceuta continua a ser um reflexo das complexas questões migratórias enfrentadas na região. A busca por respostas e soluções é urgente, enquanto as famílias lidam com a dor e a incerteza de um futuro que parece cada vez mais distante.



