A Promotoria de El Salvador pediu penas que somam milhares de anos de prisão para os chefes da gangue Mara Salvatrucha (MS-13), em um julgamento inédito que se encerrou na terça-feira (14). Este processo, que durou três meses, é o primeiro a reunir a liderança da gangue, incluindo 22 membros da chamada “ranfla histórica”, a cúpula da organização criminosa que tem sido alvo de intensas operações do governo de Nayib Bukele. O julgamento teve início em 20 de abril e envolveu 485 réus, muitos dos quais assistiram às audiências virtualmente. Entre eles, cerca de 220 líderes de facções estão detidos no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), uma prisão de segurança máxima. O Tribunal Contra o Crime Organizado agora deve analisar um extenso conjunto de provas, que inclui 650 gravações de áudio e 22 mil páginas de documentos, abrangendo relatórios policiais e laudos periciais. A Promotoria argumenta que os réus são responsáveis por 14.420 crimes cometidos entre 2012 e 2022, incluindo homicídios, feminicídios, extorsão e tráfico de drogas. A acusação também revela que a gangue utilizava um sistema de “abertura de válvulas”, onde líderes encarcerados ordenavam assassinatos a partir das prisões. Além disso, foram apresentadas evidências sobre a criação de 230 células da organização espalhadas pelo país. Em uma publicação na rede social X, o Poder Judiciário informou que a Promotoria solicitou a pena máxima para cada um dos réus em relação a todos os crimes atribuídos. Também foi requisitado o pagamento de US$ 9 milhões em indenizações por extorsão qualificada. O promotor de Crime Organizado, Max Muñoz, destacou que as penas impostas podem ser tão severas que “nem mesmo dez vidas seriam suficientes para cumpri-las”. Um dos crimes mais notórios atribuídos aos acusados foi o assassinato de 87 pessoas em março de 2022, um evento que levou o presidente Bukele a declarar uma guerra contra as gangues, implementando um regime de exceção que resultou na prisão de cerca de 92 mil pessoas sem mandado judicial. O governo de Bukele tem concentrado um poder significativo em El Salvador, e organizações de direitos humanos alertam sobre a erosão da independência do Judiciário. Críticos afirmam que a ofensiva contra as gangues, conhecidas localmente como maras, tem sido marcada por violações de direitos humanos e detenções de inocentes.




