A Copa do Mundo de 2026 trouxe à tona um debate acalorado sobre a transparência nos anúncios de apostas nas redes sociais, especialmente no Facebook e Instagram. Um levantamento realizado pela BBC News Brasil revelou que as dez maiores casas de apostas online do Brasil intensificaram suas campanhas publicitárias nas semanas que antecederam e durante o torneio, mas sem divulgar informações cruciais sobre os valores investidos e o público atingido. Essa falta de dados levanta preocupações sobre a conformidade das campanhas com a legislação que proíbe a veiculação de anúncios para menores de 18 anos, além de dificultar a análise do impacto dessas publicidades em grupos vulneráveis.
Entidades que monitoram o setor, como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), criticam a opacidade das informações relacionadas aos anúncios das casas de apostas. A pesquisadora em saúde mental do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), Dayana Rosa, e o especialista em marketing digital, Filipe Detrey, descrevem essa situação como uma “caixa preta”, onde a falta de transparência impede uma avaliação adequada das práticas de marketing dessas empresas.
Embora a legislação brasileira não exija a divulgação desses dados, a Meta, empresa controladora das plataformas em questão, possui um sistema que permite a checagem de informações demográficas e financeiras de anúncios. Esse sistema é geralmente aplicado a campanhas de políticos e ONGs, mas não foi utilizado pelas casas de apostas, que se mostraram relutantes em compartilhar informações sobre suas atividades publicitárias. O debate sobre a regulamentação das apostas no Brasil se intensificou, especialmente com a crescente receita do setor, que, segundo dados do Ministério da Fazenda, alcançou R$ 37 bilhões em 2025, fazendo do Brasil o quinto maior mercado de apostas do mundo.
Nos primeiros meses de 2026, as casas de apostas legalizadas faturaram R$ 12,2 bilhões, com cerca de 25 milhões de apostadores registrados, representando mais de 10% da população brasileira. A situação é ainda mais preocupante considerando que a maior parte dos anúncios não fornece informações sobre a segmentação do público, o que poderia garantir que menores de idade não fossem expostos a esse tipo de conteúdo. As principais associações do setor, como o Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR) e a Associação Nacional do Jogo Legal (ANJL), foram contatadas, mas se esquivaram de comentar sobre os anúncios de seus membros, alegando que a decisão de divulgar dados é uma questão estratégica de negócio.
A ANJL reconheceu que o aumento da publicidade nas redes sociais é um comportamento natural em função da proximidade da Copa do Mundo, mas reiterou que a divulgação de informações financeiras e demográficas é uma escolha das empresas. A Meta, por sua vez, afirmou que os anunciantes de jogos de azar devem comprovar que suas atividades estão licenciadas e que, caso haja violação da legislação local, os reguladores podem solicitar restrições nos anúncios.
A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) está atenta ao aumento das apostas durante a Copa e intensificou a fiscalização sobre as casas de apostas. O Ministério da Fazenda também está monitorando o mercado, embora ainda não tenha dados consolidados sobre o volume de apostas. O levantamento da BBC News Brasil, que analisou os anúncios das dez maiores casas de apostas, destaca a necessidade de maior transparência e responsabilidade nesse setor, especialmente em um momento em que o interesse por apostas cresce exponencialmente devido ao evento esportivo mais assistido do mundo. Com a regulamentação do setor em 2023, espera-se que as casas de apostas adotem práticas mais transparentes, garantindo a proteção dos consumidores e a conformidade com a legislação vigente.




