Doze anos após a Copa do Mundo de 2014, os estádios construídos para o evento continuam a impactar negativamente as finanças públicas de vários estados brasileiros. Enquanto o mundo se prepara para a Copa do Mundo de 2026, contribuintes em regiões como Amazonas, Ceará, Mato Grosso e Pernambuco ainda arcam com os custos de manutenção de arenas que, em muitos casos, não conseguem gerar receita suficiente para cobrir seus gastos operacionais.
Atualmente, oito das doze sedes da Copa de 2014 acumulam uma dívida total de R$ 232 milhões junto ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Essa situação tem drenado recursos que poderiam ser utilizados em áreas críticas, como saúde e educação. Os estádios, geridos pelos governos locais, apresentam prejuízos operacionais mensais que se somam a um cenário de ineficiência financeira.
Um exemplo emblemático é a Arena da Amazônia, em Manaus, que foi orçada em R$ 499,5 milhões, mas custou R$ 757,6 milhões. Atualmente, a manutenção da arena gera um custo anual de R$ 15 milhões ao governo do estado, sem que haja um retorno significativo em termos de receita. O estádio enfrenta dificuldades para atrair público, refletindo a realidade econômica da região. Em um recente jogo da Série D do Campeonato Brasileiro, o Manaus FC registrou um déficit operacional de R$ 64 mil.
A situação é semelhante em outras arenas. A Arena Pantanal, em Cuiabá, apesar de ter visto um aumento na frequência de eventos devido à ascensão do Cuiabá para a Série A, ainda enfrenta altos custos de manutenção, estimados em R$ 4 milhões anuais. O governo local tem buscado diversificar as receitas, mas os resultados ainda são limitados. Um show recente gerou cerca de R$ 1 milhão em impostos, mas isso não é suficiente para cobrir as despesas fixas.
A Arena de Pernambuco, localizada em São Lourenço da Mata, é outro exemplo de ineficiência. Desde que o estado reassumiu a gestão em 2017, o prejuízo acumulado ultrapassou R$ 42 milhões. O contrato de concessão com a Odebrecht foi rompido após a empresa ser alvo de investigações de corrupção, e o estado agora paga R$ 19 milhões anuais à empreiteira, além de arcar com os custos de manutenção, que giram em torno de R$ 10 milhões por ano.
O Castelão, em Fortaleza, também passou por dificuldades semelhantes. Embora tenha recebido um número considerável de eventos, os custos de operação variam entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões anualmente, refletindo a pressão sobre as contas públicas. A gestão do estádio foi transferida para o governo estadual após o fracasso da parceria público-privada (PPP) que havia sido estabelecida.
O Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, é o mais caro da Copa, com custos que se aproximam de R$ 2 bilhões. Após o torneio, o complexo enfrentou anos de ociosidade e custos de manutenção que chegavam a R$ 10 milhões. Em 2020, o governo do Distrito Federal transferiu a gestão para a iniciativa privada, mas ainda assim, os custos permanecem altos para o contribuinte.
A realidade dos estádios da Copa de 2014 levanta questões sobre a viabilidade econômica de grandes investimentos em infraestrutura esportiva, especialmente em regiões onde a demanda por eventos não se sustenta. Com o tempo, a pressão sobre as finanças públicas tende a aumentar, exigindo uma reavaliação das estratégias de gestão e financiamento dessas arenas.



