Post: Governo federal propõe divisão da Malha Sul sem diálogo com estados e setor produtivo

Governo federal propõe divisão da Malha Sul sem diálogo com estados e setor produtivo, gerando forte contestação.
Governo federal propõe divisão da Malha Sul sem diálogo com estados e setor produtivo

A proposta do governo federal para a divisão da Malha Sul em três corredores logísticos tem gerado forte contestação por parte de governadores e representantes do setor produtivo dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em um ofício enviado ao Ministério dos Transportes, os governadores, junto com o Mato Grosso do Sul, expressaram sua insatisfação com a falta de diálogo e a condução do processo sem a participação efetiva dos estados, que juntos representam 18,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

A oposição formal ao modelo foi apresentada no final de maio, quando os governadores do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) — Ratinho Junior (PR), Jorginho Mello (SC), Eduardo Leite (RS) e Eduardo Riedel (MS) — se manifestaram contrários à “Carteira de Projetos 2026” e às diretrizes federais para as ferrovias. O documento, que recebeu apoio das principais federações e associações empresariais da região, critica o isolamento técnico do governo federal no início dos estudos, ressaltando que a falta de participação das partes interessadas compromete a qualidade das decisões.

As lideranças regionais também expressaram preocupação com a fragmentação da Malha Sul, que pode levar à perda de competitividade. Beto Martins, coordenador do Grupo de Trabalho de Ferrovias do Codesul, defende uma abordagem integrada, afirmando que “uma ferrovia fatiada não trará os resultados necessários”. Ele destaca que, mesmo o Mato Grosso do Sul não sendo diretamente afetado, o estado depende da eficiência da Malha Sul para escoar sua produção.

No Rio Grande do Sul, a logística ferroviária é vista como crucial para a economia local. Cláudio Bier, presidente da Federação das Indústrias do Estado, enfatiza que a agilidade e previsibilidade dos custos logísticos são determinantes para a sobrevivência das indústrias gaúchas, que têm uma vocação histórica para o comércio exterior.

As críticas também se estendem ao traçado da ferrovia no Paraná, onde o projeto da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) não prevê contornos ferroviários em áreas densamente povoadas, mantendo o transporte de cargas em regiões centrais. O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, destaca que isso compromete a mobilidade e a qualidade de vida dos cidadãos.

A Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) pede que o novo contrato inclua metas de desempenho e mecanismos para garantir que os ganhos de eficiência sejam repassados aos usuários. Além disso, a entidade sugere a unificação da operação da Ferroeste com a nova concessão da malha Paraná-Santa Catarina.

Em resposta a essas preocupações, o Codesul, em parceria com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), lançou um edital para contratar uma consultoria que desenvolverá um estudo de viabilidade técnica e econômica para uma ferrovia integrada na região. O objetivo é fornecer subsídios técnicos para sustentar a posição contrária ao fatiamento da malha.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal (MPF) também questiona a divisão da Malha Sul, alertando que a fragmentação pode comprometer a integração do sistema ferroviário e a interoperabilidade entre as operadoras. O MPF argumenta que a integralidade da malha é um requisito técnico e econômico essencial e que a licitação desintegrada prioriza soluções regionais de curto prazo.

A ANTT, por sua vez, mantém um processo de consulta pública para definir os parâmetros da nova concessão, com a sociedade podendo enviar sugestões até 10 de agosto de 2026. O diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio, enfatiza a importância da contribuição da sociedade para que o projeto chegue ao leilão com um desenho adequado.

O plano do governo federal para a Malha Sul envolve a reorganização de 4,2 mil quilômetros de trilhos, com investimentos previstos de R$ 14,4 bilhões em Capex e R$ 38,6 bilhões em Opex ao longo de 30 anos, incluindo recursos para a recuperação de trilhos danificados. Entretanto, a falta de consenso entre os estados e o setor produtivo pode dificultar a implementação efetiva do projeto.

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