A análise da situação econômica do Irã revela que o regime enfrentará um longo caminho para restaurar a economia devastada pelos conflitos recentes. A destruição da infraestrutura e da indústria, causada por bombardeios americanos e israelenses, e o bloqueio naval que restringiu o acesso a portos, têm gerado um impacto severo na vida dos iranianos. Com a inflação disparando, atingindo 84% em relação ao ano anterior e a inflação dos alimentos alcançando 131%, a situação se torna cada vez mais crítica.
O recente memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã estabelece um prazo de 60 dias para negociações sobre um acordo final. Este acordo pode trazer incentivos significativos, incluindo até US$ 300 bilhões em investimentos, caso o Irã colabore. No entanto, a quantidade de recursos que o país realmente receberá pode se tornar um ponto de discórdia nas negociações.
O sofrimento da população iraniana é palpável. Com o bloqueio afetando as importações, cerca de 3.000 contêineres destinados ao Irã estão parados em portos paquistaneses. Além disso, os embarques de grãos para Bandar Imam Khomeini, o principal hub agrícola do país, caíram em 40%. A situação é tão crítica que muitos iranianos estão comprando carne e pão em parcelas. Segundo Gholam-Hossein Mohammadi, vice-ministro do Trabalho, até 2 milhões de pessoas perderam seus empregos, o que representa cerca de 7% da força de trabalho.
A situação no mercado de trabalho é alarmante. Em maio, um jornal local reportou que o número de candidaturas para uma única vaga de emprego dobrou, refletindo a crescente dificuldade de encontrar trabalho. O presidente do JobVision, um site de empregos, destacou que a economia e a subsistência das pessoas são os principais desafios enfrentados atualmente.
Parte do dano à economia é autoinfligido. Durante os protestos em janeiro, o regime cortou o acesso à internet, o que prejudicou ainda mais a economia. A maior varejista online do Irã, a Digikala, demitiu 3% de seus funcionários em resposta à crise. Contudo, os ataques a fábricas, refinarias e ao complexo petroquímico do Irã causaram os danos mais significativos. Desde os ataques israelenses, o Irã suspendeu suas exportações petroquímicas, que representam um terço de suas exportações não petrolíferas. Consultorias estimam que a reparação das instalações de energia pode custar até US$ 19 bilhões, enquanto a conta total de danos pode chegar a US$ 144 bilhões, aproximadamente metade do PIB do país.
Com o memorando assinado, os EUA devem suspender o bloqueio e oferecer alívio nas sanções. O fim desse bloqueio é crucial, pois estrangulou as exportações de petróleo do Irã, privando a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) de sua principal fonte de recursos. As exportações de petróleo caíram para 209.000 barris por dia em maio, uma queda de 84% em relação ao mês anterior. O armazenamento de petróleo bruto do Irã estava 83% cheio antes do acordo, e as exportações podem ser retomadas em breve.
O pacote de investimentos de US$ 300 bilhões seria uma oportunidade significativa para reconstruir a economia iraniana, mas a proposta enfrenta resistência. O ex-vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, mencionou que esse tipo de investimento poderia ser acessado se as negociações avançassem de maneira satisfatória. No entanto, o presidente Trump negou que os EUA investiriam no esquema, e as sanções que desencorajam investidores estrangeiros precisariam ser desfeitas para que qualquer compromisso fosse considerado.
Trump terá que agir com cautela, já que grande parte da indústria iraniana é controlada pela IRGC. Investimentos em larga escala poderiam significar a suspensão de sanções sobre essa facção poderosa do regime. Um alívio de sanções mais brando já gerou críticas de opositores do acordo nuclear anterior, e a necessidade da população empobrecida do país pode ser secundária em relação aos interesses do regime.



