No último dia 26, a morte de Júlio Barreto após concluir uma meia maratona em São Paulo gerou uma onda de comoção e levou a prefeitura a anunciar a criação de um grupo de trabalho para discutir a segurança em eventos esportivos. A tragédia fez com que muitos corredores refletissem sobre a fragilidade da vida e a importância de escolher o local ideal para a última corrida. Júlio, que não sabia que aquela seria sua última corrida, poderia ter optado por outro lugar. O fotógrafo Caio Guatelli, amigo de Júlio, descreveu-o como “um dos caras mais da paz” que já conheceu. Essa perda trouxe à tona uma reflexão profunda: se soubéssemos que a nossa última corrida estava próxima, onde escolheríamos realizá-la? Vanderléia de França, bicampeã da Corrida do Gari, mencionou que voltaria à sua cidade natal, Poção de Pedras (MA), para rever a família. Para ela, a conexão com as raízes é fundamental. Tadeu Guglielmi, que está próximo de completar seu projeto de correr cem maratonas em todos os continentes, enfatizou que o que realmente importa são as pessoas que escolhemos para nos acompanhar nessa jornada. Wanderlei Oliveira, treinador e pioneiro da corrida, e Paula Lavieri, professora de corrida do Cepeusp, optaram por locais que trazem recordações especiais. Wanderlei escolheria as vilas medievais de Regensburg, na Baviera, enquanto Paula preferiria Éragny-sur-Oise, perto de Paris. Anamélia Tannus, maratonista experiente, destacou a maratona de Boston como sua escolha, não apenas pela sua história, mas também porque foi a última prova de seu marido, diagnosticado com Alzheimer pouco antes de falecer. Pessoalmente, eu escolheria um fim de tarde na USP, onde frequentemente corro. É um local que traz paz e familiaridade. Também menciono Olímpia, a grega, onde tive uma experiência marcante em 2003, quando interrompi minha corrida para dar passagem a um grupo de cabras. A jornalista Erika Sallum, mesmo debilitada pelo câncer, decidiu intensificar suas viagens e pedaladas. Seu último passeio foi com o amigo Caio Guatelli, em uma praça em São Paulo. Erika, que criou a coluna Ciclocosmo, deixou um legado de amor pela vida e pela bicicleta. Ao passar pela ciclopassarela Erika Sallum, pensei na importância de homenagear aqueles que nos deixaram, mas que continuam vivos em nossas memórias. A vida é breve, e cada corrida pode ser uma celebração do que somos e das pessoas que amamos. Assim como Ulisses, que passou anos em sua jornada, ou Danielzinho, que lutou para alcançar seu recorde na maratona, todos temos nossas histórias e escolhas. Se a biografia de cada um fosse apenas ficção, talvez a realidade fosse ainda mais rica e cheia de significados. A reflexão sobre onde correr a última corrida nos leva a valorizar cada momento e a escolher com sabedoria os lugares e as pessoas que nos cercam. Afinal, a corrida é muito mais do que um esporte; é uma metáfora para a vida.




