A Bolívia vive um momento de intensa agitação política e social, marcado por protestos que paralisaram o país e resultaram na queda de três ministros. Desde o início das manifestações, mais de 90 pontos em estradas foram bloqueados, refletindo o descontentamento popular com a gestão do presidente Rodrigo Paz, que assumiu recentemente com promessas de mudança. Os protestos, que começaram em maio com uma greve, evoluíram para uma mobilização massiva que já deixou um saldo trágico de dez mortos, incluindo sete pessoas que não conseguiram atendimento médico devido aos bloqueios.
A situação no país é crítica, com ruas desertas e uma grave escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos. La Paz, a capital, se assemelha a uma cidade em lockdown, lembrando os dias mais sombrios da pandemia de Covid-19. O descontentamento popular é alimentado por uma série de fatores, entre eles a grave crise econômica que o país enfrenta, com uma recessão que fez o PIB cair 1,58% em 2025 e a inflação atingindo os maiores níveis em quase quatro décadas.
Rodrigo Paz, o primeiro presidente de direita após duas décadas de domínio da esquerda, chegou ao poder em um contexto de crise, prometendo “capitalismo para todos” e a redução de gastos públicos. No entanto, suas medidas, como a retirada dos subsídios dos combustíveis, geraram uma onda de insatisfação entre a população, que se sente traída por promessas não cumpridas. A polarização política também se intensificou, refletindo divisões geográficas e étnicas que marcam a história do país.
A questão étnica é um dos elementos centrais nas manifestações. Especialistas apontam que a ferida colonial entre o mundo indígena e o mundo branco ainda não cicatrizou, apesar das promessas de um Estado plurinacional. Essa dinâmica se torna evidente em momentos de crise, como o atual, onde as tensões sociais emergem de forma radical. A divisão entre a esquerda, representada por antigos apoiadores do ex-presidente Evo Morales, e a direita, concentrada em Santa Cruz de La Sierra, também se acirrou com a ascensão de Paz ao poder.
Além disso, a relação do presidente com seu vice, Edmand Lara Montaño, se deteriorou, culminando em uma ruptura que simboliza a desconfiança crescente entre os aliados. A decisão de Paz de se alinhar com os interesses empresariais de Santa Cruz, ao eliminar impostos sobre grandes fortunas, foi vista como uma traição por muitos que o apoiaram nas eleições.
Os protestos na Bolívia não são apenas uma reação a políticas econômicas, mas refletem uma luta mais profunda por reconhecimento e justiça social. À medida que a crise se agrava, a pressão sobre o governo aumenta, e o futuro político de Rodrigo Paz se torna cada vez mais incerto. A população continua a exigir mudanças significativas, e a resposta do governo será crucial para determinar os próximos passos na busca por estabilidade no país.



