A Organização das Nações Unidas (ONU) está sob “grande risco” de se tornar irrelevante, segundo Rafael Mariano Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e um dos candidatos ao cargo de secretário-geral da ONU. Em entrevista à Folha, Grossi destacou que a redução da burocracia e a adoção de ações mais incisivas em questões globais são essenciais para reverter a crise do multilateralismo.
Durante um seminário em Viena, onde se encontrava para discutir a atuação da AIEA, Grossi, que tem 65 anos, enfatizou a necessidade de um órgão mais proativo. Ele citou como exemplo a mediação de um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia na região da usina nuclear de Zaporíjia. “Faria isso em assuntos de paz e segurança, conversando com os beligerantes, pois há conflitos crônicos que precisam de atenção”, afirmou.
O candidato reconheceu que a ONU perdeu o foco e que a estrutura atual, com quase 200 instâncias, gera disputas burocráticas que se assemelham a governos. “É preciso voltar ao realismo. O risco de a ONU se tornar totalmente irrelevante é muito grande”, alertou Grossi.
Apesar de ser criticado por não ter deixado a AIEA para concorrer ao cargo, ele defende seu trabalho como uma demonstração de que uma organização multilateral pode funcionar. O argentino se destacou por sua abordagem dinâmica, embora tenha enfrentado acusações de personalismo durante sua gestão na AIEA.
A situação na Ucrânia, onde a AIEA teve relativo sucesso, contrasta com as dificuldades enfrentadas no Irã. Grossi mencionou que Teerã limitou e, eventualmente, vetou o trabalho de inspetores de seu programa nuclear, complicando a situação. No entanto, ele afirmou que a AIEA está pronta para agir caso um acordo seja alcançado entre iranianos e americanos. “Muito do trabalho em solo já foi feito antes da guerra”, destacou.
Recentemente, o conselho executivo da AIEA aprovou uma resolução promovida pelos Estados Unidos, que pede a volta das inspeções no Irã, um passo importante para garantir a transparência no programa nuclear do país. Grossi enfatizou a importância da verificação, especialmente em relação ao urânio enriquecido do Irã, como uma prioridade para a agência.




