Nos últimos meses, mais de 200 pessoas perderam a vida em bombardeios realizados pelos Estados Unidos contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. Entre as vítimas, há pescadores e civis que nada tinham a ver com o narcotráfico. Sem acusação, defesa ou julgamento, Washington decidiu que eram “narcoterroristas”, o que foi suficiente para transformá-los em alvos militares. Essa dinâmica levanta uma questão alarmante: desde quando o narcotráfico passou a ser punido com execução sumária?
Em uma declaração recente, Pete Hegseth, secretário de Defesa, deixou claro que a intenção é ampliar essa ofensiva. Durante uma visita ao Panamá, ao ser questionado sobre a possibilidade de ações militares contra Cuba, ele afirmou que “todas as opções, inclusive as militares, estão sobre a mesa”. Além disso, o governo colombiano, sob a liderança de Abelardo de la Espriella, autorizou operações militares conjuntas com os EUA em seu território, visando o que chamam de “narcoterrorismo”.
O mais preocupante é a rapidez com que a região começa a normalizar essa prática moralmente condenável. A discussão não é mais se os EUA têm o direito de matar suspeitos sem julgamento, mas sim onde poderão bombardear a seguir. Essa mudança de paradigma é alarmante, pois transforma a noção de justiça em um campo de batalha, onde a vida humana é reduzida a meros números em uma estatística de guerra.
Daniel Noboa, presidente do Equador, aprofundou a cooperação militar com os EUA, enquanto De la Espriella convidou os americanos a participar de operações em solo colombiano. Essa situação é particularmente perigosa, considerando que a Colômbia é um país marcado por décadas de conflito e milhões de deslocados. Os camponeses, que já sofreram com a guerra, agora enfrentam o risco de serem alvos de uma nova guerra, esta impulsionada por interesses externos.
A terminologia utilizada, como “narcoterrorismo”, ajuda a legitimar essa mudança. Essa expressão mistura chefes de cartéis, guerrilheiros e pequenos transportadores em uma única categoria de inimigos, permitindo que suspeitos sejam eliminados sem o devido processo legal. O México, por outro lado, tem adotado uma postura diferente. Claudia Sheinbaum, sua presidente, coopera com os EUA em questões de segurança, mas rejeita operações militares americanas em seu território, afirmando que a cooperação não deve se transformar em subordinação.
A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump fala em “restabelecer a preeminência” dos EUA no Hemisfério Ocidental, ressuscitando a Doutrina Monroe sob um novo corolário. Essa pretensão de Washington de decidir onde e contra quem pode usar a força na América Latina não é nova, mas o que assusta é a disposição de alguns presidentes latino-americanos em abrir as portas para essa intervenção.
Com mais de 200 mortes já registradas nessa nova guerra, é fundamental que a sociedade recupere a capacidade de se escandalizar. Antes que esses bombardeios se tornem apenas mais uma notícia comum, é preciso questionar a moralidade e a legalidade dessas ações, que ameaçam não apenas a vida de inocentes, mas também a soberania das nações latino-americanas.



