Em meio a uma queda de quase 14% na Bolsa de Valores nesta segunda-feira (26) após as eleições, o gestor americano Rob Citrone, à frente do fundo multimercado Discovery Capital, vê uma oportunidade de investimento. Citrone, que possui uma longa trajetória em mercados emergentes, decidiu aumentar sua exposição em empresas brasileiras, considerando a desvalorização como uma chance de compra.
“Observamos uma recuperação no mercado após o excesso de vendas. Portanto, aproveitamos essa situação para aumentar um pouco nossa exposição. Contudo, não estamos ampliando nossa posição estratégica até que tenhamos clareza sobre as ações do governo”, declarou o investidor em entrevista à Folha.
Citrone, que se destacou como um ‘Tiger cub’ por ter trabalhado com o renomado investidor Julian Robertson, acredita que a reação do mercado brasileiro à reeleição de Lula foi exagerada. Ele optou por não vender ativos, esperando uma recuperação da Bolsa, com destaque para o Nubank, que ele considera uma de suas grandes apostas devido ao seu modelo de negócio e expansão internacional.
“Meus alvos de recuperação a curto prazo são o dólar a R$ 5,25 e o Ibovespa a 185 mil pontos, que considero níveis justos, considerando os resultados eleitorais e a incerteza econômica”, afirmou. No fechamento da segunda-feira, o Ibovespa estava em 176.608 pontos, com uma queda de 13,88%, enquanto o dólar subiu para R$ 5,409, alta de 8,41%.
Citrone ficou surpreso com a vitória de Lula, já que as pesquisas indicavam uma vantagem de Flávio Bolsonaro até o dia anterior ao fechamento do mercado. “Eu tinha algumas ações e uma posição na moeda, mas estava com apenas cerca de 40% da exposição que pretendia. Esperava que Bolsonaro vencesse, por isso mantive alguma exposição”, disse.
O gestor não descarta aumentar seus investimentos no Brasil, dependendo das ações do governo. “Se o governo Lula fizer as coisas certas, poderemos aumentar nossa exposição. Caso contrário, acreditamos que a recuperação do mercado continuará, mas, eventualmente, reduziremos nossa exposição ao longo do tempo. Isso realmente depende do que o governo decidir fazer.”
Citrone, que já visitou o Brasil cerca de 68 vezes, expressa seu apreço pelo país e pelo seu povo. No entanto, ressalta a importância de uma política econômica sólida. Ele acredita que a escolha de nomes que agradem ao mercado para o Ministério da Fazenda poderia facilitar um ajuste fiscal necessário, reduzindo a curva de juros e, consequentemente, o custo da dívida brasileira.
“Se o governo nomear um ministro da Fazenda e um ministro da Casa Civil de alto nível, poderá se beneficiar de um ganho de credibilidade que ajudaria a realizar um ajuste importante. Isso resultaria em uma valorização da moeda, queda do prêmio de risco, juros menores e maior crescimento econômico”, explicou.
Citrone menciona positivamente os nomes de Rafael Fonteles, governador do Piauí, e Geraldo Alckmin, vice-presidente, para a Fazenda. “Não conheço Fonteles, mas ouvi boas referências sobre ele. É um sujeito inteligente, que sabe o que fazer. Com Alckmin, seria importante saber quem seria o seu apoio na Casa Civil.”
Atualmente, o mercado e o Banco Central brasileiro devem permanecer em compasso de espera. Na última reunião do Copom, a Selic caiu pela quinta vez consecutiva, de 14% para 13,75% ao ano. No entanto, o ciclo de cortes pode não continuar em novembro, dependendo das ações do governo. Citrone observa que o BC deve fazer uma pausa para avaliar as políticas econômicas que serão implementadas.
Nos Estados Unidos, ele prevê um aumento na taxa de juros em dezembro, elevando-a para a faixa de 4% a 4,25% ao ano, o que fortalecerá o dólar. “Acredito que essa pode ser a última alta, pois a inflação parece estar atingindo o pico. Precisamos superar a situação no Oriente Médio, mas, excluindo energia, a inflação está caindo”, concluiu Citrone.
Sobre a relação entre Brasil e EUA, ele acredita que uma reconciliação é possível, apesar das tarifas impostas pelos norte-americanos sobre produtos brasileiros. “Não há razão para que Trump e Lula não se entendam. Eles tiveram bons encontros recentemente e, se Lula procurar Trump, ele reagirá positivamente. Embora possam não concordar em tudo, uma boa relação é viável.”




